de um Cancioneiro Popular

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Na base deste Projeto está uma leitura pessoal sobre a Música Popular Portuguesa, e sobre a forma como esta deveria estar inserida na sociedade moderna.

A criação musical tem evoluído ao longo dos últimos anos, apontando cada vez mais para uma perspetiva de multiplicidade, que, em si se encontra em constante desenvolvimento, fazendo com que a criação musical, seja em grande parte resultado das inúmeras relações e interações entre os diferentes agentes envolvidos num processo desta natureza. Estes agentes poderão passar pelo compositor da obra, pelo intérprete para aquela performance, pelo produtor daquele disco, entre muitos outros que poderão surgir noutras perspetivas. Por isso, em pleno séc. XXI, podemos afirmar que a criação musical resulta da soma de uma série de contribuições. Neste âmbito, e inerente a esta pluralidade, têm surgido novas práticas e ferramentas, principalmente ligadas ao desenvolvimento tecnológico, que cada vez mais se vão enraizando nos diferentes processos da criação musical, diversificando assim as contribuições dos possíveis agentes envolvidos.

De toda a multiplicidade intrínseca a esta realidade, resultam novas formas de expressão musical, esbatendo-se assim, fronteiras antes intransponíveis e pondo em comunicação universos antes ferreamente segregados. É esta a leitura que subjaz a este Projeto. Este tem como objetivo a publicação de diversos temas presentes no Cancioneiro Popular Português, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, acreditando que estes possam vir a contribuir para a aproximação da expressão musical dos nossos dias, a esta parte do património imaterial nacional. É objetivo deste também, a promoção da identidade cultural Portuguesa.


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The base of this Project is a personal reading about Portuguese Popular Music, and how it should be inserted in modern society.

Music creation has evolved over the last few years, pointing more and more to a perspective of multiplicity, which in itself is in constant development, making music creation largely the result of the countless relationships and interactions between the different agents involved in a process of this nature. These agents may pass through the composer of the work, the interpreter for that performance, the producer of that record, among many others that may arise from other perspectives. Therefore, in the 21st century, we can say that musical creation results from the sum of a series of contributions. In this context, and inherent to this plurality, new practices and tools have emerged, mainly linked to technological development, which are increasingly rooted in the different processes of musical creation, thus diversifying the contributions of the possible agents involved.

From all the multiplicity intrinsic to this reality, new forms of musical expression result, thus blurring boundaries previously insurmountable and putting into communication universes previously fiercely segregated. This is the reading that underlies this Project. The aim of this project is the publication of various songs present in a Portuguese Popular Songbook named “Cancioneiro Popular Português” by Michel Giacometti and Fernando Lopes-Graça, believing that they can contribute to bring together today’s musical expression, this part of the national intangible heritage. Also an objective, is the promotion of the Portuguese cultural identity.

canções/songs

Por baixo di a porta hai luz

do Cancioneiro Popular Português Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça Tema recolhido em Amareleja, Moura, Beja

“Ao princípio pareceu-me ser o vento a bater nas canas, ou no alto dos sobreiros, ainda que imagino que deve ser raro, o vento, bem entendido. Mas agora que escuto melhor, parece-me ouvir mais lá ao fundo, as enxadas a bater na terra, para lá do cante, bem ao longe. E o bater dos corações, será? Conseguem ouvir? Esse já me tinha despertado a atenção. Oiço também vozes de homens, seguramente, juntas com as enxadas a bater na terra, e com os corações que não param. E agora que oiço ainda com mais atenção, consigo distinguir também algumas vozes de mulheres, e é engraçado que ao mesmo tempo parece-me ouvir também crianças a brincar. São curiosas estas paisagens do Alentejo, na nossa cabeça, são um sítio ermo e solitário, mas a vida que nelas há, é surpreendente, acreditem em mim. O cante voltou, agora junto com um ritmo que deduzo ser de trabalho. Imagino os corpos suados do calor, agora que também “oiço” este calor intenso e constante. Não deixa de ser curioso que quanto mais tarde fica, e o calor abranda, mais sons despertam a minha atenção. Entretanto já é quase noite, e eu nem dei pelo tempo a passar, enquanto contemplava esta paisagem maravilhosa. Bom, é certo que este cante não me sai da cabeça. Já nem sei muito bem se o estou realmente a ouvir, ou se é a minha imaginação. Gostava que estivessem aqui, e se vocês pudessem ver, tal como eu, iriam certamente perceber o que vos digo. É quase noite cerrada nesta paisagem do Alentejo, mas se olharmos bem, e com atenção, conseguimos ver que Por baixo di a porta hai luz, e é sinal de haver lá gente. É hora de seguir viagem, e sim, os rouxinóis também cantam à noite.”

Lino Guerreiro