“Acreditar” é o disco da cantora algarvia Filipa Sousa, com direção artística e produção de Valter Rolo, arranjos de corda de Lino Guerreiro.

uma produção mixensemble

“Acreditar” é o álbum de estreia da cantora algarvia Filipa Sousa e o culminar de uma carreira de vinte anos em que, tendo sempre o fado como ponto de partida, essência e matriz, lançou pontes a outros géneros musicais – do rock à música electrónica de dança e à fusão do fado com sonoridades a ele estrangeiras, nos Al-Mouraria e no Gato Malvado Ensemble. Com um sonho para cumprir e espírito de aventura, Filipa Sousa foi uma das finalistas do concurso televisivo “Operação Triunfo” (2007), ganhou a I Grande Noite de Fado do Algarve (2008), foi a surpreendente vencedora do Festival RTP da Canção em 2012 com “Vida Minha” (Carlos Coelho/Andrej Babić)…

Síntese deste percurso, “Acreditar” é o retrato fiel de uma cantora madura, segura do caminho (percorrido e) a percorrer, absolutamente coerente nos seus propósitos e intenções. E que, com a ajuda imprescindível de Valter Rolo, mentor, produtor, arranjador, teclista e compositor de algumas canções do disco, assina em “Acreditar” uma obra em que o fado está presente – no grão da sua voz, nas mágicas guitarras portuguesas de Ângelo Freire e Bernardo Couto, em linhas melódicas originais ou nas versões de “No Teu Poema” (Carlos do Carmo) ou “Meu Amor, Meu Amor (Meu Limão de Amargura)” (Amália Rodrigues) -, juntamente com belíssimas baladas, exemplos maiores de pop elegante, ritmos tradicionais e ambientes sonhadores e cinemáticos.

Um álbum que se inscreve decisivamente numa nobre e histórica linhagem em que, ao fado, se foram juntando muitos outros estilos. Género já de si híbrido, mestiço e de origem misteriosa na sua origem, o fado viria depois a cruzar-se com o tango e com o bolero, o jazz e a bossa-nova, a pop e muitas outras linguagens musicais. E, canção urbana de Lisboa, foi namorando géneros portugueses da tradição rural. Amália cantou com orquestra o folclore de Portugal e inúmeros clássicos estrangeiros para além de ter imaginado, para si, a “revolução Alain Oulman”). Nos anos 60, Maria de Fé, Carlos do Carmo e Hermínia Silva gravam acompanhados por guitarra eléctrica, baixo e bateria… Ao longo das décadas que se seguiram, o fado descobriu novas maneiras de ser cantado ou interpretado – António Variações, Anamar, Rão Kyao, Carlos Zel, Madredeus, Paulo Bragança, Dulce Pontes, Mísia, Mariza, Cristina Branco, António Zambujo, A Naifa … Todos eles, entre muitos outros, deram o seu contributo para esta História.

Mas “Acreditar” é único no seu género. Intrinsecamente acústico, nele brilham, a par da voz de Filipa Sousa, o piano e as teclas de Valter Rolo, as guitarras portuguesas de Bernardo Couto e Ângelo Freire, a bateria e as percussões de Vicky Marques, o baixo de Xico Santos e, como convidados especiais em alguns temas, Pedro Soares na viola de fado, João Frade no acordeão e João Rocha no fliscorne. Elemento fundamental na orquestração de algumas das canções, ouve-se também uma secção de cordas dirigida pelo maestro Lino Guerreiro (que reparte com Valter Rolo os arranjos para este naipe instrumental) e constituída por Romeu Madeira, José Pereira, Ana Pereira e Carolina Damásio nos violinos, Joana Cipriano e Sérgio Sousa nas violas d’arco, Tatiana Leonor e Carolina Rodrigues nos violoncelos.

Para a concretização do alinhamento final de “Acreditar”, Filipa Sousa confiou a composição musical dos temas originais a autores como Valter Rolo, Manuel da Graça Pereira e João Vitorino, para além dela própria – com Pedro Frias (seu companheiro no Gato Malvado Ensemble) – assinar a canção “Nossa Senhora da Orada”, cujo poema Filipa escreveu em honra da santa padroeira dos pescadores de Albufeira, a sua cidade. Entre os poetas chamados à liça encontram-se outros nomes bem conhecidos como Paulo Abreu Lima, Tiago Torres da Silva, Pedro da Silva Martins (Deolinda), Pedro Granger e o fadista Carlos Leitão. Na curta mas reveladora secção de versões, contam-se os clássicos “No Teu Poema” (de José Luís Tinoco para a voz de Carlos do Carmo) e “Meu Amor, Meu Amor (Meu Limão de Amargura)” (de Alain Oulman e Ary dos Santos para Amália), dois não-fados que, na voz dos seus intérpretes, se tornaram fado para sempre. E, a fechar o álbum, como chave de uma vida inteira que ficou lá atrás e aqui recomeça, recupera-se com novos arranjos a canção “Vida Minha”, com letra de Carlos Coelho e música do compositor croata Andrej Babić, tema vencedor do Festival RTP da Canção de 2012.

O primeiro single retirado de “Acreditar” é “Há Lá Coisa Bem Melhor” (Paulo Abreu Lima/Valter Rolo), uma canção alegre, positiva, uptempo (e com um ritmo que está algures entre as Antilhas, África e os viras, chulas e malhões do Minho) que combina os ingredientes de um amor rico com um rico amor.


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