ABC Manual

Manual Básico de ABC Notation

Introdução prática à escrita musical em texto simples, com exemplos prontos a usar em ABCJS, EasyABC e outros programas compatíveis com o ABC Standard v2.1.

Introdução

A notação ABC é um sistema de escrita musical em texto simples que permite criar, partilhar e reproduzir melodias a partir de qualquer editor de texto. A grande vantagem é ser diretamente compreensível sem necessidade de conhecimentos musicais avançados da notação musical tradicional.

Através de softwares também simples é possível gerar partituras e ficheiros MIDI. São disso exemplos o ABCJS e o EasyABC. A versão mais recente e estável é o ABC Standard v2.1, recomendada para todos os novos utilizadores.

Boas práticas

Nota geral: é boa prática indicar %%abc-2.1 no topo do ficheiro para garantir compatibilidade estrita com a versão atual do padrão.
  • Começar com escalas ou canções populares simples.
  • Utilizar ABCJS ou EasyABC para visualização e reprodução imediata.
  • Trabalhar em pares: uma pessoa escreve, outra revê a sintaxe e os detalhes musicais.
  • Guardar um ficheiro “modelo” com os campos principais (X, T, C, M, L, Q, K) para reutilizar em novas peças.

Comentários

Comentários em ABC começam com o símbolo % e estendem-se até ao fim da linha. Podem aparecer em qualquer ponto do ficheiro.

Exemplo

% Esta linha é um comentário

Estrutura do ficheiro

Cada ficheiro .abc pode conter uma ou várias músicas (tunes). Cada música possui:

  • um cabeçalho com campos de informação; e
  • o corpo da música (as notas, pausas e símbolos).

Os campos de cabeçalho vêm antes da linha K:. A partir de K: começa o corpo da música.

Campos de informação

Campos principais

  • X: número de referência único (ex.: X:1)
  • T: título da peça (ex.: T:Canção Popular)
  • C: compositor (ex.: C:Tradicional)
  • O: origem (ex.: O:Portugal)
  • R: ritmo/estilo (ex.: R:Valsa)
  • N: notas (ex.: N:1 tom acima)
  • H: história (ex.: H:Da diáspora do cante alentejano)
  • D: discografia (ex.: D:Less but not Last)
  • S: fonte (ex.: S:Cancioneiro Popular Português)
  • M: compasso, suporta compassos compostos (ex.: M:(2+3)/8)
  • L: unidade de nota (ex.: L:1/8)
  • Q: andamento, aceita texto (ex.: Q:"Andante" 1/4=80)
  • K: tonalidade e clave (ex.: K:Gm ou K:C clef=bass)
  • Z: transcrição (ex.: Z:John Doe)

O cabeçalho define os metadados e as propriedades musicais. O corpo, a seguir ao campo K:, contém as notas, pausas e restantes símbolos e/ou agógica musical.

Campos indicados antes do primeiro X: funcionam como predefinições para todas as músicas do ficheiro.

Exemplo mínimo

%%abc-2.1
X:1
T:Escala de Dó
M:4/4
L:1/4
K:C
C D E F | G A B c |

Exemplo com mais campos

%%abc-2.1
X:6
T:Canção Popular
C:Tradicional
M:3/4
L:1/8
Q:"Andante" 1/4=70
K:Dphr
D E F G | A2 A4 | AGFE | D6|]

Notas, durações e pausas

  • Notas de A a G. Letras maiúsculas para oitavas mais graves, minúsculas para oitavas mais agudas.
  • Apóstrofos e vírgulas alteram a oitava: c'' (mais agudo), C,, (mais grave).
  • A duração é relativa à unidade definida em L:. Exemplos: A2 (duas vezes a unidade), B/2 (metade), C3/2 (uma vez e meia).
  • Pausas usam a letra z.

Exemplo

%%abc-2.1
X:7
T:Notas, durações e pausas
M:2/4
L:1/8
K:C
C D E F | G2 z2 | GFED | zCC2|]

Ritmos desiguais e agrupamento de notas

Os operadores > e < criam ritmos desiguais (broken rhythm) sem alterar a duração total do par: com L:1/8, A>B produz uma colcheia pontuada seguida de uma semicolcheia; A<B produz o inverso. Existem também >> e <<, para proporções mais acentuadas.

O espaço entre notas pode separar grupos de colcheias (barras de ligação): ABCD tende a formar um grupo, ao passo que AB CD origina dois grupos. As durações escritas não mudam.

Exemplo — ritmos desiguais e agrupamentos

%%abc-2.1
X:30
T:Ritmos desiguais e agrupamentos
M:4/4
L:1/8
K:C
A>B c<d e>f g<a | AB CD EFG A |]

Pausas invisíveis e pausas de vários compassos

  • z — pausa visível, com duração relativa a L:; por exemplo, z2.
  • x — pausa invisível com a mesma lógica de duração; por exemplo, x2. Útil para alinhar vozes ou reservar tempo sem imprimir um sinal de pausa.
  • Z — pausa de compasso inteiro; Z2 representa uma pausa de dois compassos, não de duas unidades de L:.

Uma pausa invisível continua a ocupar tempo musical. No caso de Z2, o número designa compassos completos, independentemente de L:.

Exemplo — pausas invisíveis e multicompasso

%%abc-2.1
X:31
T:Pausas invisíveis e multicompasso
M:4/4
L:1/4
K:C
C2 z2 | x2 G2 | Z2 | c4 |]

Anacruses e compassos incompletos

Uma anacruse escreve-se normalmente com notas antes da primeira barra de compasso, sem código especial: em M:3/4 pode começar-se com G |. O último compasso pode completar a duração que falta ao primeiro; a ausência de três tempos no primeiro compasso não é, por si só, um erro.

Exemplo — anacruse

%%abc-2.1
X:32
T:Anacruse
M:3/4
L:1/4
K:C
G | C D E | F G A | B2 |]

Cabeças das notas

O motor ABCJS permite alterar a forma das cabeças das notas através do parâmetro style. Esta possibilidade é uma extensão do ABCJS: a apresentação pode variar em outros programas de notação ABC.

  • style=normal — cabeça convencional (oval).
  • style=x — cabeça em X, habitual na escrita de percussão e em indicações de altura indeterminada.
  • style=harmonic — cabeça em losango, frequentemente associada a harmónicos.
  • style=triangle — cabeça triangular, para notações especiais.
  • style=rhythm — cabeça em traço inclinado, para notação rítmica ou de acompanhamento.

Alteração de uma única nota

Escreve !style=x!, !style=harmonic!, !style=triangle!, !style=rhythm! ou !style=normal! imediatamente antes da nota. A decoração altera só essa nota; as seguintes conservam o estilo em vigor na respetiva voz. Pode também anteceder um acorde, por exemplo !style=harmonic![CEG].

Exemplo — estilos individuais

%%abc-2.1
X:25
T:Cabeças das notas — estilos individuais
M:5/4
L:1/4
K:C
!style=normal!C !style=x!D !style=harmonic!E !style=triangle!F !style=rhythm!G |]

Alteração de uma passagem

O estilo pode ser definido em K:C style=x para a música e alterado durante a escrita com uma nova linha K:C style=harmonic, K:C style=triangle ou K:C style=normal. O campo K: deve manter a tonalidade pretendida. Ao contrário da decoração !style=...!, a definição em K: atua sobre as notas seguintes, até nova alteração.

Exemplo — mudança de estilo

%%abc-2.1
X:26
T:Cabeças das notas — mudança de estilo
M:4/4
L:1/4
K:C style=x
C D E F |
K:C style=harmonic
G A B c |
K:C style=triangle
c B A G |
K:C style=normal
F E D C |]

Estilos distintos por voz

A definição V:1 style=x ou V:2 style=harmonic atribui cabeças diferentes a vozes ou pautas distintas, sem modificar as alturas e os valores escritos. É possível combinar style com atributos da voz, como name e clef.

Exemplo — estilos por voz

%%abc-2.1
X:27
T:Cabeças das notas — estilos por voz
M:4/4
L:1/4
K:C
V:1 name="X" style=x
V:2 name="Harmónicos" clef=bass style=harmonic
[V:1] C D E F | G4 |]
[V:2] C, D, E, F, | G,4 |]

Importante: a forma da cabeça é um recurso de notação, não uma transposição nem uma alteração da duração escrita. Contudo, o modo style=rhythm tem um tratamento próprio na reprodução do ABCJS e não garante a audição da altura indicada. Para reprodução rigorosa de ritmos e alturas, utiliza a escrita convencional ou confirma o resultado no player. Cabeças quadradas, em X circundado ou outros desenhos personalizados não fazem parte destes cinco estilos documentados pelo ABCJS.

Comandos personalizados (U:)

O campo U: permite atribuir um símbolo abreviado a uma decoração ou indicação musical que seria repetida na partitura. A definição escreve-se, por exemplo, U:t=!trill! no cabeçalho, antes de K:. No corpo musical, escreve-se t imediatamente antes da nota ou do acorde a que se pretende aplicar a decoração.

A sintaxe é U:símbolo=definição. No ABC Standard 2.1, podem redefinir-se as letras H–W, h–w e o carácter ~. As letras A–G e a–g continuam reservadas para as notas. A definição pode substituir um significado abreviado já existente; por isso, convém escolher símbolos fáceis de reconhecer e indicar sempre o respetivo U:.

Exemplo — ornamentos, articulação e dinâmica

Neste exemplo, t representa o trilo, s o tenuto e p a dinâmica piano. Cada abreviatura aplica-se à nota que se segue.

%%abc-2.1
X:28
T:Comandos personalizados — ornamentos e dinâmica
M:4/4
L:1/4
U:t=!trill!
U:s=!tenuto!
U:p=!p!
K:C
tC sD pE F | tG sA pB c |]

Exemplo — abreviar cabeças de notas

Os comandos também podem abreviar as decorações de estilo do ABCJS apresentadas na secção anterior: h cria uma cabeça em losango, w uma cabeça em X e n repõe pontualmente a cabeça normal. O exemplo parte de um estilo de cabeça em X definido em K:.

%%abc-2.1
X:29
T:Comandos personalizados — cabeças de notas
M:4/4
L:1/4
U:h=!style=harmonic!
U:w=!style=x!
U:n=!style=normal!
K:C style=x
C nD hE wF | nG hA wB c |]

Compatibilidade: o campo U: pertence ao ABC Standard e não é uma variável genérica nem uma forma de criar novos símbolos gráficos. A abreviatura funciona apenas se o programa interpretar a decoração que lhe foi atribuída. As decorações style=... para cabeças de notas são específicas do ABCJS e podem não produzir o mesmo resultado noutros programas.

Traços nas hastes (abreviaturas rítmicas e tremolo)

Para representar a repetição rápida de uma mesma altura através de traços diagonais na haste, o ABCJS reconhece as decorações !/! (um traço), !//! (dois traços) e !///! (três traços). Colocam-se antes da nota, mantendo a figura e a duração global originalmente escritas.

  • !/!C — semínima com um traço: repetição em colcheias.
  • !//!C — semínima com dois traços: repetição em semicolcheias.
  • !///!C — semínima com três traços: repetição em fusas.
  • !/!C2 — mínima com um traço: repetição em colcheias.
  • !//!C2 — mínima com dois traços: repetição em semicolcheias.
  • !///!C2 — mínima com três traços: repetição em fusas.

Atenção: os traços funcionam como abreviatura gráfica de tremolo/reiteração e não encurtam a duração total da nota. O ABCJS desenha estas marcas, mas a reprodução áudio pode não efetuar automaticamente as repetições. Para garantir a audição de cada ataque, escreve as notas repetidas por extenso (por exemplo, C/2C/2 para duas colcheias, com L:1/4). Estas decorações são uma extensão cuja representação pode variar noutros programas ABC.

Exemplo

%%abc-2.1
X:24
T:Traços nas hastes
M:4/4
L:1/4
K:C
!/!C !//!D !///!E F | !/!C2 !//!D2 | !///!E2 F2 |]

Ligaduras de expressão e prolongação

  • Em ABC, as ligaduras usam parênteses ( ) e o hífen -, com funções distintas: slurs (ligaduras de expressão) e ties (ligaduras de prolongação).
  • As slurs são indicadas com parênteses envolvendo várias notas, por exemplo (CD) ou (EFG), e servem para indicar fraseado e expressão, sem alterar a duração das notas.
  • As ties são indicadas com um hífen entre notas da mesma altura, e.g., G2-G2 ou f2-|f4, somando as durações e produzindo uma única nota contínua.
  • Uma tie pode atravessar barras de compasso e alterações métricas, mantendo a continuidade sonora da nota ligada.
  • Pontos colocados antes de uma slur, e.g., .(CD), criam uma ligadura de expressão tracejada
  • As slurs afetam apenas a notação e a interpretação musical, enquanto as ties afetam diretamente a duração real da nota, incluindo a reprodução sonora.

Exemplo

%%abc-2.1
X:8
T:Ligaduras
M:3/4
L:1/8
K:C
(cd) (ef) (ed) | c6|(CD EF ED)| C6| .(cd) (ef) .(ed) | c6|
(Cc) BA f2-|f4e2 | d6-|d6 | [M:4/4]e2 G2-G2 F2| e2 G4 F2| (ED C6)|]

Claves

  • A clave define a referência de altura na pauta e pode ser indicada no início do excerto ou alterada ao longo do código.
  • No ABC, a clave é normalmente declarada no campo de tonalidade (K:), por exemplo: K:C clef=treble.
  • É possível mudar a clave durante a música através de campos inline do tipo [K:...], colocados no ponto exato onde a alteração deve surgir na pauta.
  • Podem ser usadas claves como treble, bass, alto e tenor, bem como variantes com transposição de oitava, como treble+8 e treble-8.
  • As claves de Sol com +8 ou -8 alteram não só a escrita gráfica, mas também a altura do som.
  • Para escrita rítmica ou percussiva, pode ser utilizada a clave de percussão (clef=perc), normalmente associada a pautas de uma única linha (stafflines=1).

As vozes V:1 e V:2 utilizadas no exemplo que se segue servem apenas para efeitos demonstrativos. A sua utilização será abordada de forma sistemática na secção Várias vozes.

Exemplo com todas as claves

%%abc-2.1
X:9
T:Claves
M:none
L:1
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=perc stafflines=1
[V:1]C [K:bass]C [K:alto]C [K:tenor]C [K:bass3]C [K:alto2]C [K:alto1]C[K:treble]C [K:treble+8]C [K:treble-8]C
[V:2]B

Dinâmicas

  • Marcas dinâmicas, utilizadas para indicar o nível de intensidade sonora: !pppp!, !ppp!, !pp!, !p!, !mp!, !mf!, !f!, !ff!, !fff!, !ffff!, !sfz!.
  • Crescendo (aumento progressivo da intensidade): !crescendo(! (forma textual) ou a indicação gráfica de crescendo (representada por um sinal em forma de abertura), usada para marcar o início do aumento progressivo da intensidade; !crescendo)! indica o seu término.
  • Diminuendo (diminuição progressiva da intensidade): !diminuendo(! (forma textual) ou a indicação gráfica de diminuendo (representada por um sinal em forma de fecho), usada para marcar o início da diminuição progressiva da intensidade; !diminuendo)! indica o seu término.

Exemplo de dinâmicas

%%abc-2.1
X:10
T:Dinâmicas
L:1/2
K:C
!pppp!C !ppp!D !pp!E !p!F !mp!G !mf!A !f!B !ff!c !fff!d !ffff!e !sfz!f
!crescendo(! cde !crescendo)!| !<(! efg !<)!| !diminuendo(! gfe !diminuendo)!| !>(! edc !>)!|

Acidentes e armações de clave

Acidentes convencionais

Os acidentes são escritos imediatamente antes da nota a que se aplicam:

  • ^ — sustenido
  • ^^ — duplo sustenido
  • _ — bemol
  • __ — duplo bemol
  • = — natural

Exemplo de acidentes

%%abc-2.1
X:11
T:Acidentes
M:4/4
L:1/4
K:none
^C D _E =F | ^^G A __B c |]

Acidentes microtonais

As alterações microtonais seguem a mesma lógica: os valores fracionários indicam a alteração relativamente à altura natural, em frações de um semitom.

  • ^/C — Dó elevado um quarto de tom (50 cents)
  • _/C — Dó baixado um quarto de tom (50 cents; bemol invertido)
  • ^3/2C — Dó elevado três quartos de tom (150 cents)
  • _3/2C — Dó baixado três quartos de tom (150 cents; bemol invertido + bemol)

Exemplo de acidentes microtonais

%%abc-2.1
X:35
T:Acidentes microtonais
M:4/4
L:1/4
K:none
C ^/D E ^3/2F | G _/A B _3/2c |]

Notação microtonal na plataforma: os quartos de tom são representados com os acidentes próprios do ABCjs. Os três quartos de tom são representados graficamente por símbolos compostos, sem setas: meio-sustenido com sustenido (^3/2) ou bemol invertido com bemol (_3/2, convenção de Zimmermann). O código ABC escrito mantém-se inalterado no editor e na exportação. A reprodução áudio microtonal não está implementada nesta extensão gráfica. Estas alterações correspondem a passos de 50 cents; não reproduzem necessariamente os desvios exatos dos harmónicos naturais.

Exemplo de escala cromática

%%abc-2.1
X:12
T:Escala Cromática
M:4/4
L:1/4
K:C
C ^C D ^D | E F ^F G | ^G A ^A B | c4 |
c B _B A | _A G _G F | E _E D _D | C4|]

Armação de clave (K:) e modos

A armação de clave (K:) deve indicar uma nota maiúscula de A a G, que pode ser sustenida ou bemol (por exemplo K:F#, K:Bb). Além disso, pode ser especificado o modo; quando não é indicado, assume-se o modo maior por defeito.

Exemplos equivalentes (pauta sem sustenidos nem bemóis):

  • K:C major
  • K:A minor
  • K:C ionian
  • K:A aeolian
  • K:G mixolydian
  • K:D dorian
  • K:E phrygian
  • K:F lydian
  • K:B locrian

Os espaços podem ser omitidos, a capitalização é ignorada e apenas as três primeiras letras de cada modo são lidas. Assim, por exemplo: K:F# mixolydian, K:F#Mix ou K:F#MIX são equivalentes.

A mudança de tonalidade no decorrer da música é indicada através do campo K: colocado entre parênteses retos. Esta instrução aplica-se apenas a partir do ponto em que surge, sem alterar a armação de clave inicial. Exemplo: [K:D], [K:E], [K:F].

%%abc-2.1
X:13
T:Armações de clave
M:4/4
L:1/4
K:C
CDEF|GABc|| [K:D] DEFG|ABcd||
[K:E] EFGA|Bcde|| [K:F] FGAB|cdef|]

Barras e repetições

  • | — barra simples
  • || — barra dupla
  • |] — barra final
  • |: e :| — início/fim de repetição
  • [1 … :|2 … — finais alternativos

Exemplo

%%abc-2.1
X:14
T:Barras e repetições
M:4/4
L:1/4
K:C
|: G A B |1 c B :|2 d c |]

Apogiaturas e quiálteras

Apogiaturas

  • As apogiaturas (grace notes) são indicadas entre chavetas { } e representam notas ornamentais executadas rapidamente, sem duração própria.
  • Apogiaturas simples usam uma única nota, e.g., {e}d, enquanto apogiaturas compostas podem incluir várias notas, como {ce}d ou {gab}g.
  • É possível indicar um corte nas hastes das apogiaturas: {/e}.
  • Alterações cromáticas podem ser aplicadas às apogiaturas de forma independente, e.g., {_e} ou {^ce}.

Quiálteras

  • As quiálteras são indicadas com parênteses precedidos de um número, como (3, (5 ou (7, e definem grupos rítmicos irregulares.
  • O número indica quantas notas devem caber no espaço normalmente ocupado por um valor rítmico regular, por exemplo (3CDE (três notas no tempo de duas).
  • Quiálteras podem abranger notas simples, notas ligadas, pausas ou escalas completas, sendo fechadas implicitamente após o número de notas indicado.
  • As apogiaturas não afetam a contagem métrica principal, enquanto as quiálteras alteram explicitamente a subdivisão rítmica.

Exemplo

%%abc-2.1
X:15
T:Apogiaturas e quiálteras
M:4/4
L:1/8
K:C
{e}d2 {ce}d2 {/e}d2 {/ce}d2| [M:C] {_e}d2 {^ce}d2 {/e}d2 {/=ce}d2|
{gab}g2(f2e2)(d2|c)8|| [M:6/8] (2CE (2GC| (4c/d/e/f/ (4(g/f/e/d/)|
[M:3/4] (5c/d/e/f/g/ (6(c/d/e/f/g/a/) (7c/d/e/f/g/a/b/ | (8(c/d/e/f/g/a/b/c'/) (9c/d/e/f/g/a/b/c'/d'/| (3c'cC [K:bass]C,4|]

Quiálteras — sintaxe e proporções

Uma quiáltera altera a proporção entre o número de notas escritas e o tempo que ocupam. No ABC, começa com um parêntese de abertura seguido de um número, por exemplo (3CDE. Não se escreve parêntese de fecho para terminar o grupo: a sua extensão é determinada pela indicação inicial.

Forma abreviada

O código (3CDE representa três notas no tempo de duas. Os códigos (2, (3, (4, …, (9 usam proporções predefinidas pelo ABC Standard 2.1:

  • (2 — 2 no tempo de 3; (3 — 3 no tempo de 2; (4 — 4 no tempo de 3.
  • (6 — 6 no tempo de 2; (8 — 8 no tempo de 3.
  • (5, (7 e (9 — 5, 7 ou 9 no tempo de 2 (compasso simples) ou de 3 (compasso composto, como 6/8 ou 9/8).

Atenção: (5 não significa necessariamente «5 no tempo de 4», nem (7 «7 no tempo de 4». Para indicar essas proporções de forma inequívoca, usa-se (5:4:5 ou (7:4:7.

Forma completa: (p:q:r

O formato (p:q:r explicita os três parâmetros. p é o número indicado na quiáltera; q é a quantidade de unidades rítmicas de referência em que cabem p unidades; r é o número de eventos de nota ou pausa seguintes abrangidos pela proporção. Quando r é omitido, assume-se p; quando q é omitido, aplica-se a proporção predefinida. A duração efetiva do grupo corresponde à soma dos valores escritos multiplicada por q/p.

Exemplos: (3:2:3 CDE (tercina de três colcheias), (5:4:5 CDEFG (cinco colcheias no tempo de quatro), (7:4:7 CDEFGAB (sete no tempo de quatro) e (3:2:2 G2 A (tercina repartida por duas notas de duração diferente).

Exemplo — tercinas, quintinas e septinas

%abc-2.1
X:2
T:Quiálteras — tercinas, quintinas e septinas
M:4/4
L:1/8
K:C
(3CDE (3FGA B2 c2 | (5:4:5 CDEFG (7:4:7 ABCDEFG |]

Em 4/4, cada tercina (3 ocupa duas colcheias; no segundo compasso, cada grupo explícito ocupa quatro colcheias. Ambos os compassos têm a duração correta de oito colcheias.

Exemplo — duínas, quartinas, sextinas e octinas

%abc-2.1
X:3
T:Quiálteras — duínas, quartinas, sextinas e octinas
M:3/4
L:1/8
K:C
(2:3:2 CD (4:3:4 EFGA | (6:4:6 BCDEFG A2 | (8:6:8 CDEFGABc |]

As proporções são indicadas explicitamente, incluindo (6:4:6 (seis no tempo de quatro), que não é equivalente à abreviatura (6 do padrão.

Exemplo — proporções explícitas em compasso composto

%abc-2.1
X:4
T:Quiálteras — compassos compostos
M:6/8
L:1/8
K:C
(5:3:5 CDEFG (5:3:5 GABcd | (7:3:7 CDEFGAB (7:3:7 cdefgab |]

No ABC Standard 2.1, em 6/8, as abreviaturas (5 e (7 têm, por definição, a proporção de cinco ou sete no tempo de três. Para garantir o resultado no ABCJS integrado, que pode interpretar essas abreviaturas como grupos no tempo de duas, escreve-se explicitamente (5:3:5 e (7:3:7. Cada par completa seis colcheias.

Exemplo — durações diferentes e pausas

%abc-2.1
X:5
T:Quiálteras — durações diferentes e pausas
M:2/4
L:1/8
K:C
(3:2:2 G2 A B2 | (3:2:2 C z2 E2 |]

Em (3:2:2, a proporção de tercina abrange dois eventos (não três), cuja duração escrita total corresponde a três colcheias: G2 A ou C z2. O grupo passa a valer duas colcheias e é completado por B2 ou E2. As pausas contam como eventos rítmicos; as apogiaturas {...} não ocupam tempo métrico nesta contagem.

Agógica

Nem todos os símbolos e ornamentos apresentados nesta secção são suportados de forma idêntica por todos os programas ABC, podendo existir variações na representação gráfica e na reprodução sonora.

  • Staccato (articulação curta): . indica execução destacada da nota.
  • Roll irlandês: ~ representa um ornamento típico da música tradicional irlandesa.
  • Fermata: H indica sustentação prolongada da nota.
  • Acento / ênfase: L marca uma nota com destaque expressivo.
  • Mordente inferior: M indica um ornamento breve abaixo da nota principal.
  • Mordente superior: P indica um ornamento breve acima da nota principal.
  • Trilo: T representa a alternância rápida entre duas notas adjacentes.
  • Segno: S indica ponto de retorno formal.
  • Coda: O assinala a secção final da peça.
  • Arcadas: u (arcada para cima), v (arcada para baixo).
  • Decorações explícitas, por exemplo: !trill! (trilo), !lowermordent! (mordente inferior), !uppermordent! (mordente superior), !pralltriller! (equivalente ao mordente superior).
  • Ornamentos adicionais: !turn! (grupeto), !roll! (roll irlandês), !arpeggio! (arpejo vertical).
  • Acentuação e articulação: !>!, !accent!, !emphasis! (acento), !tenuto! (nota sustentada).
  • Indicações de execução instrumental: !upbow! (arcada para cima), !downbow! (arcada para baixo), !open! (corda solta ou harmónico), !thumb! (posição de polegar), !snap! (snap pizzicato), !slide! (deslizamento), !breath! (respiração).
  • Dedilhações: !0! a !5! indicam dedos específicos.
  • Sinais formais: !segno!, !coda!, !D.S.! (Da Segno), !D.C.! (Da Capo / Da Coda), !fine!.
  • Marcas de frase: !shortphrase!, !mediumphrase!, !longphrase!, indicando diferentes extensões visuais da frase.

Exemplo

%%abc-2.1
X:16
T:Agógica
L:1/4
.e ~g Hf Ld Me PA TB Sf Od uf ve
!trill!E !lowermordent!G !uppermordent!G !pralltriller!d !turn!f !roll!G !arpeggio![EAdg]
!>!c !accent!c !emphasis!c !tenuto!d !upbow!c !downbow!e !open!g !thumb!a !snap!b !slide!c'
!breath!c !segno!F !coda!F !D.S.!F !D.C.!F !fine!F !shortphrase!d !mediumphrase!d !longphrase!d

Glissandos

No ABCJS, os comandos !glissando(! e !glissando)! delimitam a linha de glissando entre duas notas. O primeiro é escrito antes da nota inicial, e o segundo antes da nota final. Por exemplo: !glissando(!B2 !glissando)!F3.

Notação e áudio: estes comandos desenham a indicação gráfica; a reprodução do ABCJS não deve ser interpretada como um glissando contínuo de altura. Para ouvir uma sucessão de alturas definidas, é necessário escrevê-las explicitamente. Trata-se de uma extensão cuja representação pode variar fora do ABCJS.

Exemplo — glissandos entre notas

%%abc-2.1
X:33
T:Glissandos entre notas
M:5/4
L:1/4
K:C
!glissando(!B2 !glissando)!F3 | !glissando(!G2 !glissando)!d3 |]

Letras (lyrics)

É possível alinhar texto (letras) com as notas musicais através do campo w:. Cada sílaba corresponde, por defeito, a uma nota sucessiva. O sistema é suficientemente flexível para repertórios silábicos e melismáticos.

Campos principais

  • w: — letras alinhadas nota a nota (uma estrofe por linha).
  • W: — texto livre não alinhado com a música (estrofes completas).

Convenções e símbolos essenciais

  • Hífen (-) — separa sílabas da mesma palavra: Ma-ri-a
  • Underscore (_) — prolonga a mesma sílaba por várias notas (melisma).
  • Asterisco (*) — sílaba vazia; avança uma nota sem texto, mantendo o alinhamento.
  • Barra vertical (|) — força o alinhamento com a barra de compasso.
  • Til (~) — mantém palavras compostas ou com espaço interno na mesma sílaba gráfica.
  • Espaço ( ) — separa sílabas distintas.

Boas práticas editoriais

  • Colocar cada linha w: imediatamente após a música correspondente.
  • Usar múltiplas linhas w: para estrofes alinhadas.
  • Reservar W: para as estrofes, e/ou texto poético completo.

Exemplo integrado

%%abc-2.1
X:17
T:Fui colher uma romã
C:Tradicional
A:Alentejo
M:2/4
L:1/8
Q:"Lento" 1/4=60
K:F
A2GF|A2GF|A3G|F4|F2FE|G2ED|
w:Fui co-lher u-ma ro-mã_ *esta-va ma-du-ra no
C4|G4|B2BB|B2AB|c3B|A2AA|A2cc|
w:ra-mo, fui en-con-trar num jar-dim_ fui, en-con-trar num jar-
B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|B2BB|B2AB|c3B|
w:dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo, fui en-con-trar num jar-dim_
A2AA|A2cc|B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|
w:fui, en-con-trar num jar-dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo.
%
W:2.
W:Àquela mulher que eu amo
W:Dei-lhe um aperto de mão
W:Estava madura no ramo
W:Estava madura no ramo
W:E o ramo caiu ao chão
%
W:
W:3.
W:As pombas quando namoram
W:Pousam as asas no chão
W:Que é para os pombos não verem
W:Que é para os pombos não verem
W:O bater do coração

Neste exemplo, combinam-se sílabas separadas (-), melismas (_), sílabas vazias (*) e texto livre (W:). O alinhamento explícito por compasso (|) e o uso do til (~) para manter palavras compostas ou com espaço interno na mesma sílaba gráfica não foram utilizados.

Foi ainda utilizado o apóstrofo (') na escrita do texto para indicar elisão ou ligação fonética entre palavras (por exemplo, que’eu), mas o apóstrofo não é um comando do ABC Notation para alinhamento sílaba–nota. Trata-se apenas de um carácter textual, de uso corrente em diversos contextos editoriais.

Formatação de letras e análise harmónica

As diretivas %%vocalfont e %%vocalspace controlam a apresentação das linhas w:, tanto em letras cantadas como em cifras de análise harmónica. As letras de canções e a análise partilham este mecanismo de alinhamento; w: é associado às notas da linha musical imediatamente anterior.

Diretivas principais

  • %%vocalfont "Times New Roman" 16 — seleciona a família e o tamanho da fonte para w:.
  • %%vocalspace 10 — estabelece o espaço reservado entre a pauta e a linha de texto; é um valor de referência compacto, utilizado na Harmonia Funcional.
  • %%vocalfont "Times New Roman" 16 bold — apresenta a análise em negrito no ABCJS.

Outras combinações possíveis incluem %%vocalfont "Arial" 14 (sem serifas, menor), %%vocalfont "Times New Roman" 18 (maior), ou %%vocalspace 20 (mais afastado). O afastamento final pode aumentar automaticamente perante notas graves, cifras ou outros elementos, e as diretivas não são necessariamente interpretadas de modo idêntico por todos os programas ABC.

Exemplo — cifra anglo-saxónica e análise do Reino Unido

%abc-2.1
X:37
T:Formatação de letras e análise harmónica
M:4/4
L:1/4
%%vocalfont "Times New Roman" 16 bold
%%vocalspace 10
K:C
"^C"[CEG]4 | "^G7"[GBdf]4 | "^C/E"[CEG]4 | "^F"[FAc]4 | "^G7"[GBdf]4 | "^C"[CEG]4 |]
w: I V⁷ Ib IV V⁷ I

A primeira linha %abc-2.1 identifica a versão do padrão; não é uma diretiva gráfica %%.

Neste exemplo, a cifra anglo-saxónica encontra-se acima da pauta (anotação "^C") e a análise do Reino Unido está abaixo, em w:. As letras de inversão (b, c, d) e os expoentes (⁷, ⁹, ¹¹, ¹³) são caracteres escritos no texto da análise, e não comandos especiais de formatação ABC.

Outras possibilidades

  • %%gchordfont "Arial" 15 — fonte das cifras de acordes colocadas acima da pauta.
  • %%annotationfont "Arial" 12 — fonte das anotações textuais, por exemplo "^cantabile".
  • %%wordsfont "Times New Roman" 14 — tipografia do texto livre em W:, distinto do texto alinhado de w:.
  • ~ em w: — espaço inseparável dentro de uma sílaba ou expressão (por exemplo, V⁷~de~V), não um controlo de deslocamento horizontal preciso.
  • * e | em w: — saltar uma nota ou avançar até à barra de compasso, mantendo o alinhamento correto.
Nota editorial: para deslocamentos horizontais fixos ou uma tipografia uniforme em todas as partituras de uma página, a folha de estilos do respetivo apontamento pode complementar estas diretivas. Alterações CSS não são incorporadas no ficheiro ABC exportado. Não se deve usar a diretiva %%staffsep para tentar afastar letras: controla sistemas musicais, não o texto alinhado.

Várias vozes

Uma voz por sistema

A notação ABC permite escrever polifonia através da definição de vozes independentes com o campo V:. Cada voz corresponde a uma linha musical autónoma e pode ter a sua própria clave, nome e conteúdo rítmico e melódico.

Quando não é usada qualquer diretiva adicional de agrupamento, cada voz é apresentada num sistema independente.

No exemplo seguinte, três vozes distintas são escritas e apresentadas cada uma no seu próprio sistema, com claves diferentes.

Exemplo simples

%%abc-2.1
X:18
T:Várias vozes
M:C
L:1/4
Q:1/4=80
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=alto
V:3 clef=bass
[V:1]!p!(CD)(EF)| !<(!G2E2!<)!| !f!(FD)ED| HC4|]
[V:2]!p!C2 CD| !<(!E2G2!<)!| !f!AF(EF)| HE4|]
[V:3]!p!G,2 G,,2| !<(!C,2 ^C,2!<)!| !f!D,2G,,2| HC,4|]

Exemplo para coro (SATB)

A escrita a quatro vozes (SATB — Soprano, Alto, Tenor e Baixo) pode ser realizada, definindo cada parte vocal como uma voz independente. Neste caso, cada voz surge igualmente num sistema próprio, o que facilita a leitura individual das linhas vocais.

O texto cantado é associado às respetivas vozes através do campo w:, mantendo a correspondência entre sílabas e alturas.

%%abc-2.1
X:19
T:Happy Birthday
T:para Coro (SATB)
M:3/4
Q:1/4=90
L:1/4
K:C
V:1 name=Soprano
G/2>G/2| A G c| B2 G/2>G/2| A G d| c2 z |
w: Hap-py birth-day to you Hap-py birth-day to you
V:2 name=Alto
E| F G2| G2 E| F G2| G2 z|
V:3 name=Tenor clef=tenor
C| B,2 E| D2 C| B,2 F| E2 z|
V:4 name=Baixo clef=bass
C,| F, E,/2-D,/2 C,| G, G,,C,| F, E,/2-D,/2 G,,| C, C,, z|

Duas vozes por sistema

Em contextos corais e harmónicos, é frequente agrupar duas vozes no mesmo sistema, permitindo uma leitura vertical mais direta e uma perceção clara das relações contrapontísticas e harmónicas.

Em ABC, este agrupamento é controlado pela diretiva %%score, que define explicitamente como as vozes vão ser organizadas graficamente nos sistemas.

A definição de cada voz é feita através do campo V:, seguido de um identificador (por exemplo, S, A, T, B). A cada voz podem ser associados atributos como a clave (clef=), o nome completo (name=) e uma abreviação (snm=), que surgem, respetivamente, no início do sistema e em contextos de leitura reduzida. Esta estrutura permite controlar de forma precisa a apresentação gráfica e a identificação das partes vocais em partituras corais.

No exemplo seguinte, as vozes de Soprano e Alto são agrupadas no sistema superior, enquanto Tenor e Baixo partilham o sistema inferior, disposição típica da escrita coral SATB.

Cada linha musical é associada à sua voz através da indicação [V:Nome], garantindo clareza estrutural mesmo em contextos polifónicos mais complexos.

Exemplo para coro (SATB) em dois sistemas

%%abc-2.1
X:20
T:Aus meines Herzens Grunde
C:J. S. Bach
O:BWV 269
R:Choral
S:Musicalisches Gesang-Buch (1736) – Schemelli-Gesangbuch
N:Editor: Georg Christian Schemelli
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:G
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble name="Alto" snm="A."
V:T clef=bass name="Tenor" snm="T."
V:B clef=bass name="Baixo" snm="B."
[V:S]G|G2d|B3/A/G|G3/A/B|HA2 B|d2c|BA2|HG2:|]
[V:A]D|DED|D2B,|E/D/E/F/|G|F2G|DEF|G2F|D2:|]
[V:T]B,|B,C/B,/A,|G,F,G,|C/B,/CD|HD2D|A,B,C|DED/C/|HB,2:|]
[V:B]G,,|G,E,F,|G,D,E,|C,B,,/A,,/G,,|D,2G,,|F,,G,,A,,|B,,C,D,|G,,2:|]

Outras informações no campo V:

A linha V: é responsável pela configuração individual de cada voz, permitindo definir não apenas a clave e o nome, mas também parâmetros gráficos que afetam a leitura musical. Entre esses parâmetros, destaca-se a possibilidade de fixar a direção das hastes ao longo de toda a voz, recorrendo a stem=up ou stem=down, o que é particularmente útil em contextos de escrita polifónica num único pentagrama.

Adicionalmente, pode ser aplicada uma escala relativa a cada voz através do parâmetro scale=, permitindo estabelecer hierarquias visuais entre linhas musicais, sem alterar o conteúdo rítmico ou melódico.

%%abc-2.1
X:21
T:Outras informações no campo V:
N:As novas informações integradas neste exemplo são:
N:- stem
N:- scale
N:As restantes opções do campo V: foram apresentadas anteriormente.
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=86
K:C
%%score {1 2}
V:1 clef=treble name="Soprano I" snm="S. I" stem=up scale=1.1
V:2 clef=treble name="Soprano II" snm="S. II" stem=down scale=0.9
[V:1]
!mf!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]
[V:2]
!ff!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]

Espaçamento vertical entre pautas e sistemas

A distância entre as pautas de um mesmo sistema e a distância entre sistemas musicais consecutivos podem ser ajustadas de forma independente através de diretivas de formatação. Esta distinção é especialmente útil em partituras para piano, escrita coral e exemplos de análise harmónica com várias pautas.

Diretivas

  • %%sysstaffsep 60 — controla o espaçamento vertical entre pautas do mesmo sistema.
  • %%staffsep 80 — controla o espaçamento vertical entre sistemas consecutivos.

Os valores representam distâncias de formatação (habitualmente em pontos tipográficos). Quanto maior o valor, maior o espaço pedido; a disposição final depende também do motor de notação e dos elementos musicais presentes.

Exemplo — duas pautas e dois sistemas

Neste exemplo, %%score {1 2} organiza as duas vozes em pautas distintas, agrupadas por chaveta. A diretiva %%barsperstaff 2 distribui os quatro compassos por dois sistemas para facilitar a comparação visual.

%%abc-2.1
X:36
T:Espaçamento entre pautas e sistemas
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=80
K:C
%%score {1 2}
%%sysstaffsep 60
%%staffsep 80
%%barsperstaff 2
V:1 clef=treble name="Voz superior"
V:2 clef=bass name="Voz inferior"
[V:1] C D E F | G A B c | c B A G | F E D C |]
[V:2] C, D, E, F, | G, A, B, C | C B, A, G, | F, E, D, C, |]
Importante: estas diretivas regulam o espaçamento entre pautas e sistemas, não a distância entre vozes sobrepostas numa única pauta. Por exemplo, em %%score (1 2) ambas as vozes partilham a mesma pauta; para as apresentar em pautas diferentes pode usar-se %%score {1 2}. Os valores podem ser ajustados, por exemplo, para 40, 60, 80 ou 100.

Acordes e Cifra

Notas simultâneas (acordes)

Notas simultâneas, isto é, acordes “na pauta”, escrevem-se dentro de parêntesis retos:

[CEG] representa um acorde de Dó maior.

Cifras harmónicas

Cifras de acordes (harmonia funcional) colocam-se entre aspas duplas antes da nota onde soam:

Exemplos: "C", "CMaj7", "G", "G7", etc.

Exemplo com acordes e comentários

%%abc-2.1
% o comentário pode estar em qualquer sítio
X:22
T:Acordes
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:C
[CEG] [GBD] [Gce] [ceg]||
"C"c e "G"d B | "Dm7"A F "G7"F D | "CMaj7"C4|]

Anotações textuais associadas às notas

Além das cifras harmónicas, as aspas duplas permitem acrescentar texto de execução. Um prefixo dentro das aspas define a posição: "^texto" (acima da pauta), "_texto" (abaixo), "<texto" (à esquerda) e ">texto" (à direita). Ao contrário de "C" ou "G7", estas indicações são anotações, não cifras.

Exemplo — anotações de execução

%%abc-2.1
X:34
T:Anotações de execução
M:4/4
L:1/4
K:C
"^cantabile"C2 "_dolce"D2 | "<início"E2 ">fim"F2 |]

Exemplo completo

%%abc-2.1
% ============================================================
% EXEMPLO SÍNTESE — ABC NOTATION
% Integração de alguns dos campos mais frequentes
% ============================================================
X:23
T:Exemplo Integrado de ABC Notation
T:Manual Básico — Síntese
C:Tradicional
O:Portugal
R:Didático/Coral
S:Manual Básico de ABC Notation
N:Exemplo pedagógico com múltiplos recursos do padrão ABC
H:Destinado à escrita, análise e criação de materiais didáticos e pedagógicos
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:"Por causa de um papagaio" 1/4=60
K:C
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble  name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble  name="Alto"    snm="A."
V:T clef=bass    name="Tenor"   snm="T."
V:B clef=bass    name="Baixo"   snm="B."
% ============================================================
% SOPRANO
% ============================================================
[V:S]ggef| g2g2| gagf| e2c2|
w:Pa-pa-ga-io loi-ro, de bi-co doi-ra-do,
egfe| g2d2| dfed| c2Hc2|]
w:le-va-me'es-ta car-ta, ao meu na-mo-ra-do!
% ============================================================
% ALTO
% ============================================================
[V:A]E2GF| _E2DG/F/| =ED3| E/F/GF2|
E2FG-|GF-F3/^C/|D3F|E3/F/E2|]
% ============================================================
% TENOR
% ============================================================
[V:T]G,2ED/C/| _B,2=B,2| C2B,2| C_B,A,C|
C=B,DE| D3/C/_B,2| =B,2_B,2| A,2HG,2|]
% ============================================================
% BAIXO
% ============================================================
[V:B]C,3_B,,| _E,,3/F,,/G,,G,| G,^F,G,G,,| C,2=F,3/G,/|
A,E,D,C,| B,,3/A,,/_B,,3/A,,/| G,,G,,G,C,| F,,2C,2|]

O ABC Notation deve ser entendido como um sistema de escrita musical simbólica em texto simples, concebido para a representação funcional da informação musical e não como um sistema de notação editorial completo. O seu principal objetivo reside na documentação, partilha e análise de material musical, privilegiando a legibilidade humana, a portabilidade dos ficheiros e a facilidade de edição. Neste sentido, o ABC tem sido amplamente utilizado na preservação de repertórios tradicionais, na criação de esboços musicais, no ensino da leitura e da escrita musical e na produção de materiais didáticos e pedagógicos, funcionando como uma ferramenta intermédia entre a ideia musical e a sua eventual realização em ambientes de notação ou produção mais avançados. As limitações do ABC no que respeita à microtonalidade, à notação contemporânea complexa e ao controlo editorial do layout são reconhecidas pelos próprios autores como limitações conscientes do seu âmbito de aplicação.