ABC Manual

Manual Básico de ABC Notation

Introdução prática à escrita musical em texto simples, com exemplos prontos a usar em ABCJS, EasyABC e outros programas compatíveis com o ABC Standard v2.1.

Introdução

A notação ABC é um sistema de escrita musical em texto simples que permite criar, partilhar e reproduzir melodias a partir de qualquer editor de texto. A grande vantagem é ser diretamente compreensível sem necessidade de conhecimentos musicais avançados da notação musical tradicional.

Através de softwares também simples é possível gerar partituras e ficheiros MIDI. São disso exemplos o ABCJS e o EasyABC. A versão mais recente e estável é o ABC Standard v2.1, recomendada para todos os novos utilizadores.

Boas práticas

Nota geral: é boa prática indicar %%abc-2.1 no topo do ficheiro para garantir compatibilidade estrita com a versão atual do padrão.
  • Começar com escalas ou canções populares simples.
  • Utilizar ABCJS ou EasyABC para visualização e reprodução imediata.
  • Trabalhar em pares: uma pessoa escreve, outra revê a sintaxe e os detalhes musicais.
  • Guardar um ficheiro “modelo” com os campos principais (X, T, C, M, L, Q, K) para reutilizar em novas peças.

Comentários

Comentários em ABC começam com o símbolo % e estendem-se até ao fim da linha. Podem aparecer em qualquer ponto do ficheiro.

Exemplo

% Esta linha é um comentário

Estrutura do ficheiro

Cada ficheiro .abc pode conter uma ou várias músicas (tunes). Cada música possui:

  • um cabeçalho com campos de informação; e
  • o corpo da música (as notas, pausas e símbolos).

Os campos de cabeçalho vêm antes da linha K:. A partir de K: começa o corpo da música.

Campos de informação

Campos principais

  • X: número de referência único (ex.: X:1)
  • T: título da peça (ex.: T:Canção Popular)
  • C: compositor (ex.: C:Tradicional)
  • O: origem (ex.: O:Portugal)
  • R: ritmo/estilo (ex.: R:Valsa)
  • N: notas (ex.: N:1 tom acima)
  • H: história (ex.: H:Da diáspora do cante alentejano)
  • D: discografia (ex.: D:Less but not Last)
  • S: fonte (ex.: S:Cancioneiro Popular Português)
  • M: compasso, suporta compassos compostos (ex.: M:(2+3)/8)
  • L: unidade de nota (ex.: L:1/8)
  • Q: andamento, aceita texto (ex.: Q:"Andante" 1/4=80)
  • K: tonalidade e clave (ex.: K:Gm ou K:C clef=bass)
  • Z: transcrição (ex.: Z:John Doe)

O cabeçalho define os metadados e as propriedades musicais. O corpo, a seguir ao campo K:, contém as notas, pausas e restantes símbolos e/ou agógica musical.

Campos indicados antes do primeiro X: funcionam como predefinições para todas as músicas do ficheiro.

Exemplo mínimo

%%abc-2.1
X:1
T:Escala de Dó
M:4/4
L:1/4
K:C
C D E F | G A B c |

Exemplo com mais campos

%%abc-2.1
X:1
T:Canção Popular
C:Tradicional
M:3/4
L:1/8
Q:"Andante" 1/4=70
K:Dphr
D E F G | A2 A4 | AGFE | D6|]

Notas, durações e pausas

  • Notas de A a G. Letras maiúsculas para oitavas mais graves, minúsculas para oitavas mais agudas.
  • Apóstrofos e vírgulas alteram a oitava: c'' (mais agudo), C,, (mais grave).
  • A duração é relativa à unidade definida em L:. Exemplos: A2 (duas vezes a unidade), B/2 (metade), C3/2 (uma vez e meia).
  • Pausas usam a letra z.

Exemplo

%%abc-2.1
X:1
T:Notas, durações e pausas
M:2/4
L:1/8
K:C
C D E F | G2 z2 | GFED | zCC2|]
       

Ligaduras de expressão e prolongação

  • Em ABC, as ligaduras usam parênteses ( ) e o hífen -,   com funções distintas: slurs (ligaduras de expressão) e    ties (ligaduras de prolongação).
  • As slurs são indicadas com parênteses envolvendo várias notas, por exemplo (CD) ou (EFG), e servem para   indicar fraseado e expressão, sem alterar a duração das notas.
  • As ties são indicadas com um hífen entre notas da mesma altura, e.g., G2-G2 ou f2-|f4, somando as durações e produzindo uma única nota contínua.
  • Uma tie pode atravessar barras de compasso e alterações métricas, mantendo a continuidade sonora da nota ligada.
  •   Pontos colocados antes de uma slur, e.g., .(CD), criam uma ligadura de expressão tracejada
  • As slurs afetam apenas a notação e a interpretação musical, enquanto as ties afetam diretamente a duração real da nota, incluindo a reprodução sonora.

Exemplo

%%abc-2.1
X:1
T:Ligaduras
M:3/4
L:1/8
K:C
(cd) (ef) (ed) | c6|(CD EF ED)| C6| .(cd) (ef) .(ed) | c6|
(Cc) BA f2-|f4e2 | d6-|d6 | [M:4/4]e2 G2-G2 F2| e2 G4 F2| (ED C6)|]

Claves

  • A clave define a referência de altura na pauta e pode ser indicada no início do excerto ou alterada ao longo do código.
  • No ABC, a clave é normalmente declarada no campo de tonalidade (K:), por exemplo: K:C clef=treble.
  • É possível mudar a clave durante a música através de campos inline do tipo [K:...], colocados no ponto exato onde a alteração deve surgir na pauta.
  • Podem ser usadas claves como treble, bass, alto e tenor, bem como variantes com transposição de oitava, como treble+8 e treble-8.
  • As claves de Sol com +8 ou -8 alteram não só a escrita gráfica, mas também a altura do som.
  • Para escrita rítmica ou percussiva, pode ser utilizada a clave de percussão (clef=perc), normalmente associada a pautas de uma única linha (stafflines=1).

As vozes V:1 e V:2 utilizadas no exemplo que se segue servem apenas para efeitos demonstrativos. A sua utilização será abordada de forma sistemática na secção Várias vozes.

Exemplo com todas as claves

%%abc-2.1
X:1
T:Claves
M:none
L:1
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=perc stafflines=1
[V:1]C [K:bass]C [K:alto]C [K:tenor]C [K:bass3]C [K:alto2]C [K:alto1]C[K:treble]C [K:treble+8]C [K:treble-8]C
[V:2]B

Dinâmicas

  • Marcas dinâmicas, utilizadas para indicar o nível de intensidade sonora: !pppp!, !ppp!, !pp!, !p!, !mp!, !mf!, !f!, !ff!, !fff!, !ffff!, !sfz!.
  • Crescendo (aumento progressivo da intensidade): !crescendo(! (forma textual) ou a indicação gráfica de crescendo (representada por um sinal em forma de abertura), usada para marcar o início do aumento progressivo da intensidade; !crescendo)! indica o seu término.
  • Diminuendo (diminuição progressiva da intensidade): !diminuendo(! (forma textual) ou a indicação gráfica de diminuendo (representada por um sinal em forma de fecho), usada para marcar o início da diminuição progressiva da intensidade; !diminuendo)! indica o seu término.
       

Exemplo de dinâmicas

%%abc-2.1
X:1
T:Dinâmicas
L:1/2
K:C
!pppp!C !ppp!D !pp!E !p!F !mp!G !mf!A !f!B !ff!c !fff!d !ffff!e !sfz!f
!crescendo(! cde !crescendo)!| !<(! efg !<)!| !diminuendo(! gfe !diminuendo)!| !>(! edc !>)!|

Acidentes e armações de clave

Acidentes

  • ^ sustenido
  • ^^ duplo sustenido
  • _ bemol
  • __ duplo bemol
  • = natural

Exemplo de acidentes

%%abc-2.1
X:1
T:Acidentes
M:4/4
L:1/4
K:G
^C D _E =F | F4 | ^^G A __B c |]

Exemplo de escala cromática

%%abc-2.1
X:1
T:Escala Cromática
M:4/4
L:1/4
K:C
C ^C D ^D | E F ^F G | ^G A ^A B | c4 |
c B _B A | _A G _G F | E _E D _D | C4|]

Armação de clave (K:) e modos

A armação de clave (K:) deve indicar uma nota maiúscula de A a G, que pode ser sustenida ou bemol (por exemplo K:F#, K:Bb). Além disso, pode ser especificado o modo; quando não é indicado, assume-se o modo maior por defeito.

Exemplos equivalentes (pauta sem sustenidos nem bemóis):

  • K:C major
  • K:A minor
  • K:C ionian
  • K:A aeolian
  • K:G mixolydian
  • K:D dorian
  • K:E phrygian
  • K:F lydian
  • K:B locrian

Os espaços podem ser omitidos, a capitalização é ignorada e apenas as três primeiras letras de cada modo são lidas. Assim, por exemplo: K:F# mixolydian, K:F#Mix ou K:F#MIX são equivalentes.

A mudança de tonalidade no decorrer da música é indicada através do campo K: colocado entre parênteses retos. Esta instrução aplica-se apenas a partir do ponto em que surge, sem alterar a armação de clave inicial. Exemplo: [K:D], [K:E], [K:F].

%%abc-2.1
X:1
T:Armações de clave
M:4/4
L:1/4
K:C
CDEF|GABc|| [K:D] DEFG|ABcd||
[K:E] EFGA|Bcde|| [K:F] FGAB|cdef|]

Barras e repetições

  • | — barra simples
  • || — barra dupla
  • |] — barra final
  • |: e :| — início/fim de repetição
  • [1:|2 … — finais alternativos

Exemplo

%%abc-2.1
X:1
T:Barras e repetições
M:4/4
L:1/4
K:C
|: G A B |1 c B :|2 d c |]

Apogiaturas e quiálteras

Apogiaturas

  • As apogiaturas (grace notes) são indicadas entre chavetas { } e representam notas ornamentais executadas rapidamente, sem duração própria.
  • Apogiaturas simples usam uma única nota, e.g., {e}d, enquanto apogiaturas compostas podem incluir várias notas, como {ce}d ou {gab}g.
  • É possível indicar um corte nas hastes das apogiaturas: {/e}.
  • Alterações cromáticas podem ser aplicadas às apogiaturas de forma independente, e.g., {_e} ou {^ce}.

Quiálteras

  • As quiálteras são indicadas com parênteses precedidos de um número, como (3, (5 ou (7, e definem grupos rítmicos irregulares.
  • O número indica quantas notas devem caber no espaço normalmente ocupado por um valor rítmico regular, por exemplo (3CE (três notas no tempo de duas).
  • Quiálteras podem abranger notas simples, notas ligadas, pausas ou escalas completas, sendo fechadas implicitamente após o número de notas indicado.
  • As apogiaturas não afetam a contagem métrica principal, enquanto as quiálteras alteram explicitamente a subdivisão rítmica.

Exemplo

%%abc-2.1
X:1
T:Apogiaturas e quiálteras
M:4/4
L:1/8
K:C
{e}d2 {ce}d2 {/e}d2 {/ce}d2| [M:C] {_e}d2 {^ce}d2 {/e}d2 {/=ce}d2|
{gab}g2(f2e2)(d2|c)8|| [M:6/8] (2CE (2GC| (4c/d/e/f/ (4(g/f/e/d/)|
[M:3/4] (5c/d/e/f/g/ (6(c/d/e/f/g/a/) (7c/d/e/f/g/a/b/ | (8(c/d/e/f/g/a/b/c'/) (9c/d/e/f/g/a/b/c'/d'/| (3c'cC [K:bass]C,4|]
     

Agógica

Nem todos os símbolos e ornamentos apresentados nesta secção são suportados de forma idêntica por todos os programas ABC, podendo existir variações na representação gráfica e na reprodução sonora.

  • Staccato (articulação curta): . indica execução destacada da nota.
  • Roll irlandês: ~ representa um ornamento típico da música tradicional irlandesa.
  • Fermata: H indica sustentação prolongada da nota.
  • Acento / ênfase: L marca uma nota com destaque expressivo.
  • Mordente inferior: M indica um ornamento breve abaixo da nota principal.
  • Mordente superior: P indica um ornamento breve acima da nota principal.
  • Trilo: T representa a alternância rápida entre duas notas adjacentes.
  • Segno: S indica ponto de retorno formal.
  • Coda: O assinala a secção final da peça.
  • Arcadas: u (arcada para cima), v (arcada para baixo).
  • Decorações explícitas, por exemplo: !trill! (trilo), !lowermordent! (mordente inferior), !uppermordent! (mordente superior), !pralltriller! (equivalente ao mordente superior).
  • Ornamentos adicionais: !turn! (grupeto), !roll! (roll irlandês), !arpeggio! (arpejo vertical).
  • Acentuação e articulação: !>!, !accent!, !emphasis! (acento), !tenuto! (nota sustentada).
  • Indicações de execução instrumental: !upbow! (arcada para cima), !downbow! (arcada para baixo), !open! (corda solta ou harmónico), !thumb! (posição de polegar), !snap! (snap pizzicato), !slide! (deslizamento), !breath! (respiração).
  • Dedilhações: !0! a !5! indicam dedos específicos.
  • Sinais formais: !segno!, !coda!, !D.S.! (Da Segno), !D.C.! (Da Capo / Da Coda), !fine!.
  • Marcas de frase: !shortphrase!, !mediumphrase!, !longphrase!, indicando diferentes extensões visuais da frase.

Exemplo

%%abc-2.1
X:1
T:Agógica
L:1/4
.e ~g Hf Ld Me PA TB Sf Od uf ve
!trill!E !lowermordent!G !uppermordent!G !pralltriller!d !turn!f !roll!G !arpeggio![EAdg]
!>!c !accent!c !emphasis!c !tenuto!d !upbow!c !downbow!e !open!g !thumb!a !snap!b !slide!c'
!breath!c !segno!F !coda!F !D.S.!F !D.C.!F !fine!F !shortphrase!d !mediumphrase!d !longphrase!d

Letras (lyrics)

É possível alinhar texto (letras) com as notas musicais através do campo w:. Cada sílaba corresponde, por defeito, a uma nota sucessiva. O sistema é suficientemente flexível para repertórios silábicos e melismáticos.

Campos principais

  • w: — letras alinhadas nota a nota (uma estrofe por linha).
  • W: — texto livre não alinhado com a música (estrofes completas).

Convenções e símbolos essenciais

  • Hífen (-) — separa sílabas da mesma palavra: Ma-ri-a
  • Underscore (_) — prolonga a mesma sílaba por várias notas (melisma).
  • Asterisco (*) — sílaba vazia; avança uma nota sem texto, mantendo o alinhamento.
  • Barra vertical (|) — força o alinhamento com a barra de compasso.
  • Til (~) — mantém palavras compostas ou com espaço interno na mesma sílaba gráfica.
  • Espaço ( ) — separa sílabas distintas.

Boas práticas editoriais

  • Colocar cada linha w: imediatamente após a música correspondente.
  • Usar múltiplas linhas w: para estrofes alinhadas.
  • Reservar W: para as estrofes, e/ou texto poético completo.

Exemplo integrado

%%abc-2.1
X:1
T:Fui colher uma romã
C:Tradicional
A:Alentejo
M:2/4
L:1/8
Q:"Lento" 1/4=60
K:F
A2GF|A2GF|A3G|F4|F2FE|G2ED|
w:Fui co-lher u-ma ro-mã_ *esta-va ma-du-ra no
C4|G4|B2BB|B2AB|c3B|A2AA|A2cc|
w:ra-mo, fui en-con-trar num jar-dim_ fui, en-con-trar num jar-
B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|B2BB|B2AB|c3B|
w:dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo, fui en-con-trar num jar-dim_
A2AA|A2cc|B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|
w:fui, en-con-trar num jar-dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo.
%
W:2.
W:Àquela mulher que eu amo
W:Dei-lhe um aperto de mão
W:Estava madura no ramo
W:Estava madura no ramo
W:E o ramo caiu ao chão
%
W:
W:3.
W:As pombas quando namoram
W:Pousam as asas no chão
W:Que é para os pombos não verem
W:Que é para os pombos não verem
W:O bater do coração

Neste exemplo, combinam-se sílabas separadas (-), melismas (_), sílabas vazias (*) e texto livre (W:). O alinhamento explícito por compasso (|) e o uso do til (~) para manter palavras compostas ou com espaço interno na mesma sílaba gráfica não foram utilizados.

Foi ainda utilizado o apóstrofo (') na escrita do texto para indicar elisão ou ligação fonética entre palavras (por exemplo, que’eu), mas o apóstrofo não é um comando do ABC Notation para alinhamento sílaba–nota. Trata-se apenas de um carácter textual, de uso corrente em diversos contextos editoriais.

Várias vozes

Uma voz por sistema

A notação ABC permite escrever polifonia através da definição de vozes independentes com o campo V:. Cada voz corresponde a uma linha musical autónoma e pode ter a sua própria clave, nome e conteúdo rítmico e melódico.

Quando não é usada qualquer diretiva adicional de agrupamento, cada voz é apresentada num sistema independente.

No exemplo seguinte, três vozes distintas são escritas e apresentadas cada uma no seu próprio sistema, com claves diferentes.

Exemplo simples

%%abc-2.1
X:1
T:Várias vozes
M:C
L:1/4
Q:1/4=80
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=alto
V:3 clef=bass
[V:1]!p!(CD)(EF)| !<(!G2E2!<)!| !f!(FD)ED| HC4|]
[V:2]!p!C2 CD| !<(!E2G2!<)!| !f!AF(EF)| HE4|]
[V:3]!p!G,2 G,,2| !<(!C,2 ^C,2!<)!| !f!D,2G,,2| HC,4|]

Exemplo para coro (SATB)

A escrita a quatro vozes (SATB — Soprano, Alto, Tenor e Baixo) pode ser realizada, definindo cada parte vocal como uma voz independente. Neste caso, cada voz surge igualmente num sistema próprio, o que facilita a leitura individual das linhas vocais.

O texto cantado é associado às respetivas vozes através do campo w:, mantendo a correspondência entre sílabas e alturas.

%%abc-2.1
X:1
T:Happy Birthday
T:para Coro (SATB)
M:3/4
Q:1/4=90
L:1/4
K:C
V:1 name=Soprano
G/2>G/2| A G c| B2 G/2>G/2| A G d| c2 z |
w: Hap-py birth-day to you Hap-py birth-day to you
V:2 name=Alto
E| F G2| G2 E| F G2| G2 z|
V:3 name=Tenor clef=tenor
C| B,2 E| D2 C| B,2 F| E2 z|
V:4 name=Baixo clef=bass
C,| F, E,/2-D,/2 C,| G, G,,C,| F, E,/2-D,/2 G,,| C, C,, z|

Duas vozes por sistema

Em contextos corais e harmónicos, é frequente agrupar duas vozes no mesmo sistema, permitindo uma leitura vertical mais direta e uma perceção clara das relações contrapontísticas e harmónicas.

Em ABC, este agrupamento é controlado pela diretiva %%score, que define explicitamente como as vozes vão ser organizadas graficamente nos sistemas.

A definição de cada voz é feita através do campo V:, seguido de um identificador (por exemplo, S, A, T, B). A cada voz podem ser associados atributos como a clave (clef=), o nome completo (name=) e uma abreviação (snm=), que surgem, respetivamente, no início do sistema e em contextos de leitura reduzida. Esta estrutura permite controlar de forma precisa a apresentação gráfica e a identificação das partes vocais em partituras corais.

No exemplo seguinte, as vozes de Soprano e Alto são agrupadas no sistema superior, enquanto Tenor e Baixo partilham o sistema inferior, disposição típica da escrita coral SATB.

Cada linha musical é associada à sua voz através da indicação [V:Nome], garantindo clareza estrutural mesmo em contextos polifónicos mais complexos.

Exemplo para coro (SATB) em dois sistemas

%%abc-2.1
X:1
T:Aus meines Herzens Grunde
C:J. S. Bach
O:BWV 269
R:Choral
S:Musicalisches Gesang-Buch (1736) – Schemelli-Gesangbuch
N:Editor: Georg Christian Schemelli
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:G
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble name="Alto" snm="A."
V:T clef=bass name="Tenor" snm="T."
V:B clef=bass name="Baixo" snm="B."
[V:S]G|G2d|B3/A/G|G3/A/B|HA2 B|d2c|BA2|HG2:|]
[V:A]D|DED|D2B,|E/D/E/F/|G|F2G|DEF|G2F|D2:|]
[V:T]B,|B,C/B,/A,|G,F,G,|C/B,/CD|HD2D|A,B,C|DED/C/|HB,2:|]
[V:B]G,,|G,E,F,|G,D,E,|C,B,,/A,,/G,,|D,2G,,|F,,G,,A,,|B,,C,D,|G,,2:|]

Outras informações no campo V:

A linha V: é responsável pela configuração individual de cada voz, permitindo definir não apenas a clave e o nome, mas também parâmetros gráficos que afetam a leitura musical. Entre esses parâmetros, destaca-se a possibilidade de fixar a direção das hastes ao longo de toda a voz, recorrendo a stem=up ou stem=down, o que é particularmente útil em contextos de escrita polifónica num único pentagrama.

Adicionalmente, pode ser aplicada uma escala relativa a cada voz através do parâmetro scale=, permitindo estabelecer hierarquias visuais entre linhas musicais, sem alterar o conteúdo rítmico ou melódico.

%%abc-2.1
X:1
T:Outras informações no campo V:
N:As novas informações integradas neste exemplo são:
N:- stem
N:- scale
N:As restantes opções do campo V: foram apresentadas anteriormente.
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=86
K:C
%%score {1 2}
V:1 clef=treble name="Soprano I" snm="S. I" stem=up scale=1.1
V:2 clef=treble name="Soprano II" snm="S. II" stem=down scale=0.9
[V:1]
!mf!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]
[V:2]
!ff!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]

Acordes e Cifra

Notas simultâneas (acordes)

Notas simultâneas, isto é, acordes “na pauta”, escrevem-se dentro de parêntesis retos:

[CEG] representa um acorde de Dó maior.

Cifras harmónicas

Cifras de acordes (harmonia funcional) colocam-se entre aspas duplas antes da nota onde soam:

Exemplos: "C", "CMaj7", "G", "G7", etc.

Exemplo com acordes e comentários

%%abc-2.1
% o comentário pode estar em qualquer sítio
X:1
T:Acordes
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:C
[CEG] [GBD] [Gce] [ceg]||
"C"c e "G"d B | "Dm7"A F "G7"F D | "CMaj7"C4|]

Exemplo completo

%%abc-2.1
% ============================================================
% EXEMPLO SÍNTESE — ABC NOTATION
% Integração de alguns dos campos mais frequentes
% ============================================================
X:1
T:Exemplo Integrado de ABC Notation
T:Manual Básico — Síntese
C:Tradicional
O:Portugal
R:Didático/Coral
S:Manual Básico de ABC Notation
N:Exemplo pedagógico com múltiplos recursos do padrão ABC
H:Destinado à escrita, análise e criação de materiais didáticos e pedagógicos
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:"Por causa de um papagaio" 1/4=60
K:C
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble  name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble  name="Alto"    snm="A."
V:T clef=bass    name="Tenor"   snm="T."
V:B clef=bass    name="Baixo"   snm="B."
% ============================================================
% SOPRANO
% ============================================================
[V:S]ggef| g2g2| gagf| e2c2|
w:Pa-pa-ga-io loi-ro, de bi-co doi-ra-do,
egfe| g2d2| dfed| c2Hc2|]
w:le-va-me'es-ta car-ta, ao meu na-mo-ra-do!
% ============================================================
% ALTO
% ============================================================
[V:A]E2GF| _E2DG/F/| =ED3| E/F/GF2|
E2FG-|GF-F3/^C/|D3F|E3/F/E2|]
% ============================================================
% TENOR
% ============================================================
[V:T]G,2ED/C/| _B,2=B,2| C2B,2| C_B,A,C|
C=B,DE| D3/C/_B,2| =B,2_B,2| A,2HG,2|]
% ============================================================
% BAIXO
% ============================================================
[V:B]C,3_B,,| _E,,3/F,,/G,,G,| G,^F,G,G,,| C,2=F,3/G,/|
A,E,D,C,| B,,3/A,,/_B,,3/A,,/| G,,G,,G,C,| F,,2C,2|]

O ABC Notation deve ser entendido como um sistema de escrita musical simbólica em texto simples, concebido para a representação funcional da informação musical e não como um sistema de notação editorial completo. O seu principal objetivo reside na documentação, partilha e análise de material musical, privilegiando a legibilidade humana, a portabilidade dos ficheiros e a facilidade de edição. Neste sentido, o ABC tem sido amplamente utilizado na preservação de repertórios tradicionais, na criação de esboços musicais, no ensino da leitura e da escrita musical e na produção de materiais didáticos e pedagógicos, funcionando como uma ferramenta intermédia entre a ideia musical e a sua eventual realização em ambientes de notação ou produção mais avançados. As limitações do ABC no que respeita à microtonalidade, à notação contemporânea complexa e ao controlo editorial do layout são reconhecidas pelos próprios autores como limitações conscientes do seu âmbito de aplicação.

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  • Web Audio API — tecnologia nativa do navegador
  • ABCJS — © Paul Rosen & Gregory Smith — MIT License
  • ABC Notation format — © Chris Walshaw — Standard CC BY-SA 3.0
  • VexFlow — © Mohit Muthanna — MIT License
  • Tone.js — © Yotam Mann — MIT License
  • Chart.js — © Chart.js Contributors — MIT License
  • PDF.js — © Mozilla Foundation — Apache License 2.0
  • pdf-lib — © Andrew Dillon — MIT License
  • fontkit — © Devongovett — MIT License
  • Web Audio API — native browser technology

Manual ABC — Referência

ABC Manual — Reference

Partes do texto e explicações relacionadas com a sintaxe ABC seguem e adaptam o documento The abc music standard 2.1 (Chris Walshaw, 2011), distribuído sob licença CC BY-SA 3.0. Todo o conteúdo adicional, exemplos pedagógicos, reformulações e estrutura foram desenvolvidos por Lino Guerreiro.

Portions of text and explanations regarding ABC syntax follow and adapt the document The abc music standard 2.1 (Chris Walshaw, 2011), licensed under CC BY-SA 3.0. All additional content, pedagogical structuring, examples and explanatory material were created by Lino Guerreiro.