Manual Básico de ABC Notation
Introdução prática à escrita musical em texto simples, com exemplos prontos a usar em ABCJS, EasyABC e outros programas compatíveis com o ABC Standard v2.1.
Introdução
A notação ABC é um sistema de escrita musical em texto simples que permite criar, partilhar e reproduzir melodias a partir de qualquer editor de texto. A grande vantagem é ser diretamente compreensível sem necessidade de conhecimentos musicais avançados da notação musical tradicional.
Através de softwares também simples é possível gerar partituras e ficheiros MIDI. São disso exemplos o ABCJS e o EasyABC. A versão mais recente e estável é o ABC Standard v2.1, recomendada para todos os novos utilizadores.
Boas práticas
%%abc-2.1 no topo do ficheiro para garantir
compatibilidade estrita com a versão atual do padrão.
- Começar com escalas ou canções populares simples.
- Utilizar ABCJS ou EasyABC para visualização e reprodução imediata.
- Trabalhar em pares: uma pessoa escreve, outra revê a sintaxe e os detalhes musicais.
-
Guardar um ficheiro “modelo” com os campos principais (
X,T,C,M,L,Q,K) para reutilizar em novas peças.
Comentários
Comentários em ABC começam com o símbolo % e estendem-se
até ao fim da linha. Podem aparecer em qualquer ponto do ficheiro.
Exemplo
% Esta linha é um comentário
Estrutura do ficheiro
Cada ficheiro .abc pode conter uma ou várias músicas
(tunes). Cada música possui:
- um cabeçalho com campos de informação; e
- o corpo da música (as notas, pausas e símbolos).
Os campos de cabeçalho vêm antes da linha K:. A partir
de K: começa o corpo da música.
Campos de informação
Campos principais
X:número de referência único (ex.:X:1)T:título da peça (ex.:T:Canção Popular)C:compositor (ex.:C:Tradicional)O:origem (ex.:O:Portugal)R:ritmo/estilo (ex.:R:Valsa)N:notas (ex.:N:1 tom acima)H:história (ex.:H:Da diáspora do cante alentejano)D:discografia (ex.:D:Less but not Last)S:fonte (ex.:S:Cancioneiro Popular Português)M:compasso, suporta compassos compostos (ex.:M:(2+3)/8)L:unidade de nota (ex.:L:1/8)-
Q:andamento, aceita texto (ex.:Q:"Andante" 1/4=80) -
K:tonalidade e clave (ex.:K:GmouK:C clef=bass) Z:transcrição (ex.:Z:John Doe)
O cabeçalho define os metadados e as
propriedades musicais. O corpo, a seguir ao campo K:, contém as notas, pausas e restantes símbolos e/ou agógica musical.
Campos indicados antes do primeiro X: funcionam como
predefinições para todas as músicas do ficheiro.
Exemplo mínimo
%%abc-2.1
X:1
T:Escala de Dó
M:4/4
L:1/4
K:C
C D E F | G A B c |
Exemplo com mais campos
%%abc-2.1
X:1
T:Canção Popular
C:Tradicional
M:3/4
L:1/8
Q:"Andante" 1/4=70
K:Dphr
D E F G | A2 A4 | AGFE | D6|]
Notas, durações e pausas
-
Notas de
AaG. Letras maiúsculas para oitavas mais graves, minúsculas para oitavas mais agudas. -
Apóstrofos e vírgulas alteram a oitava:
c''(mais agudo),C,,(mais grave). -
A duração é relativa à unidade definida em
L:. Exemplos:A2(duas vezes a unidade),B/2(metade),C3/2(uma vez e meia). -
Pausas usam a letra
z.
Exemplo
%%abc-2.1
X:1
T:Notas, durações e pausas
M:2/4
L:1/8
K:C
C D E F | G2 z2 | GFED | zCC2|]
Ligaduras de expressão e prolongação
-
Em ABC, as ligaduras usam parênteses
( )e o hífen-, com funções distintas: slurs (ligaduras de expressão) e ties (ligaduras de prolongação). -
As slurs são indicadas com parênteses envolvendo várias
notas, por exemplo
(CD)ou(EFG), e servem para indicar fraseado e expressão, sem alterar a duração das notas. -
As ties são indicadas com um hífen entre notas da mesma
altura, e.g.,
G2-G2ouf2-|f4, somando as durações e produzindo uma única nota contínua. - Uma tie pode atravessar barras de compasso e alterações métricas, mantendo a continuidade sonora da nota ligada.
-
Pontos colocados antes de uma slur, e.g.,
.(CD), criam uma ligadura de expressão tracejada - As slurs afetam apenas a notação e a interpretação musical, enquanto as ties afetam diretamente a duração real da nota, incluindo a reprodução sonora.
Exemplo
%%abc-2.1
X:1
T:Ligaduras
M:3/4
L:1/8
K:C
(cd) (ef) (ed) | c6|(CD EF ED)| C6| .(cd) (ef) .(ed) | c6|
(Cc) BA f2-|f4e2 | d6-|d6 | [M:4/4]e2 G2-G2 F2| e2 G4 F2| (ED C6)|]
Claves
- A clave define a referência de altura na pauta e pode ser indicada no início do excerto ou alterada ao longo do código.
-
No ABC, a clave é normalmente declarada no campo de tonalidade
(
K:), por exemplo:K:C clef=treble. -
É possível mudar a clave durante a música através de campos inline do tipo
[K:...], colocados no ponto exato onde a alteração deve surgir na pauta. -
Podem ser usadas claves como
treble,bass,altoetenor, bem como variantes com transposição de oitava, comotreble+8etreble-8. -
As claves de Sol com
+8ou-8alteram não só a escrita gráfica, mas também a altura do som. -
Para escrita rítmica ou percussiva, pode ser utilizada a
clave de percussão (
clef=perc), normalmente associada a pautas de uma única linha (stafflines=1).
As vozes V:1 e V:2 utilizadas no exemplo que se segue servem apenas
para efeitos demonstrativos. A sua utilização será abordada de forma sistemática
na secção Várias vozes.
Exemplo com todas as claves
%%abc-2.1
X:1
T:Claves
M:none
L:1
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=perc stafflines=1
[V:1]C [K:bass]C [K:alto]C [K:tenor]C [K:bass3]C [K:alto2]C [K:alto1]C[K:treble]C [K:treble+8]C [K:treble-8]C
[V:2]B
Dinâmicas
-
Marcas dinâmicas, utilizadas para indicar o nível de intensidade sonora:
!pppp!,!ppp!,!pp!,!p!,!mp!,!mf!,!f!,!ff!,!fff!,!ffff!,!sfz!. -
Crescendo (aumento progressivo da intensidade):
!crescendo(!(forma textual) ou a indicação gráfica de crescendo (representada por um sinal em forma de abertura), usada para marcar o início do aumento progressivo da intensidade;!crescendo)!indica o seu término. -
Diminuendo (diminuição progressiva da intensidade):
!diminuendo(!(forma textual) ou a indicação gráfica de diminuendo (representada por um sinal em forma de fecho), usada para marcar o início da diminuição progressiva da intensidade;!diminuendo)!indica o seu término.
Exemplo de dinâmicas
%%abc-2.1
X:1
T:Dinâmicas
L:1/2
K:C
!pppp!C !ppp!D !pp!E !p!F !mp!G !mf!A !f!B !ff!c !fff!d !ffff!e !sfz!f
!crescendo(! cde !crescendo)!| !<(! efg !<)!| !diminuendo(! gfe !diminuendo)!| !>(! edc !>)!|
Acidentes e armações de clave
Acidentes
^sustenido^^duplo sustenido_bemol__duplo bemol=natural
Exemplo de acidentes
%%abc-2.1
X:1
T:Acidentes
M:4/4
L:1/4
K:G
^C D _E =F | F4 | ^^G A __B c |]
Exemplo de escala cromática
%%abc-2.1
X:1
T:Escala Cromática
M:4/4
L:1/4
K:C
C ^C D ^D | E F ^F G | ^G A ^A B | c4 |
c B _B A | _A G _G F | E _E D _D | C4|]
Armação de clave (K:) e modos
A armação de clave (K:) deve indicar uma nota maiúscula
de A a G, que pode ser sustenida ou bemol
(por exemplo K:F#, K:Bb). Além disso, pode
ser especificado o modo; quando não é indicado, assume-se o modo
maior por defeito.
Exemplos equivalentes (pauta sem sustenidos nem bemóis):
K:C majorK:A minorK:C ionianK:A aeolianK:G mixolydianK:D dorianK:E phrygianK:F lydianK:B locrian
Os espaços podem ser omitidos, a capitalização é ignorada e apenas as
três primeiras letras de cada modo são lidas. Assim, por exemplo:
K:F# mixolydian,
K:F#Mix ou K:F#MIX são equivalentes.
A mudança de tonalidade no decorrer da música é indicada através do campo
K: colocado entre parênteses retos. Esta instrução aplica-se
apenas a partir do ponto em que surge, sem alterar a armação de clave inicial.
Exemplo: [K:D], [K:E], [K:F].
%%abc-2.1
X:1
T:Armações de clave
M:4/4
L:1/4
K:C
CDEF|GABc|| [K:D] DEFG|ABcd||
[K:E] EFGA|Bcde|| [K:F] FGAB|cdef|]
Barras e repetições
|— barra simples||— barra dupla|]— barra final|:e:|— início/fim de repetição-
[1…:|2… — finais alternativos
Exemplo
%%abc-2.1
X:1
T:Barras e repetições
M:4/4
L:1/4
K:C
|: G A B |1 c B :|2 d c |]
Apogiaturas e quiálteras
Apogiaturas
-
As apogiaturas (grace notes) são indicadas entre chavetas
{ }e representam notas ornamentais executadas rapidamente, sem duração própria. -
Apogiaturas simples usam uma única nota, e.g.,
{e}d, enquanto apogiaturas compostas podem incluir várias notas, como{ce}dou{gab}g. -
É possível indicar um corte nas hastes das apogiaturas:
{/e}. -
Alterações cromáticas podem ser aplicadas às apogiaturas de forma
independente, e.g.,
{_e}ou{^ce}.
Quiálteras
-
As quiálteras são indicadas com parênteses precedidos de um
número, como
(3,(5ou(7, e definem grupos rítmicos irregulares. -
O número indica quantas notas devem caber no espaço normalmente ocupado por
um valor rítmico regular, por exemplo
(3CE(três notas no tempo de duas). - Quiálteras podem abranger notas simples, notas ligadas, pausas ou escalas completas, sendo fechadas implicitamente após o número de notas indicado.
- As apogiaturas não afetam a contagem métrica principal, enquanto as quiálteras alteram explicitamente a subdivisão rítmica.
Exemplo
%%abc-2.1
X:1
T:Apogiaturas e quiálteras
M:4/4
L:1/8
K:C
{e}d2 {ce}d2 {/e}d2 {/ce}d2| [M:C] {_e}d2 {^ce}d2 {/e}d2 {/=ce}d2|
{gab}g2(f2e2)(d2|c)8|| [M:6/8] (2CE (2GC| (4c/d/e/f/ (4(g/f/e/d/)|
[M:3/4] (5c/d/e/f/g/ (6(c/d/e/f/g/a/) (7c/d/e/f/g/a/b/ | (8(c/d/e/f/g/a/b/c'/) (9c/d/e/f/g/a/b/c'/d'/| (3c'cC [K:bass]C,4|]
Agógica
Nem todos os símbolos e ornamentos apresentados nesta secção são suportados de forma idêntica por todos os programas ABC, podendo existir variações na representação gráfica e na reprodução sonora.
-
Staccato (articulação curta):
.indica execução destacada da nota. -
Roll irlandês:
~representa um ornamento típico da música tradicional irlandesa. -
Fermata:
Hindica sustentação prolongada da nota. -
Acento / ênfase:
Lmarca uma nota com destaque expressivo. -
Mordente inferior:
Mindica um ornamento breve abaixo da nota principal. -
Mordente superior:
Pindica um ornamento breve acima da nota principal. -
Trilo:
Trepresenta a alternância rápida entre duas notas adjacentes. -
Segno:
Sindica ponto de retorno formal. -
Coda:
Oassinala a secção final da peça. -
Arcadas:
u(arcada para cima),v(arcada para baixo). -
Decorações explícitas, por exemplo:
!trill!(trilo),!lowermordent!(mordente inferior),!uppermordent!(mordente superior),!pralltriller!(equivalente ao mordente superior). -
Ornamentos adicionais:
!turn!(grupeto),!roll!(roll irlandês),!arpeggio!(arpejo vertical). -
Acentuação e articulação:
!>!,!accent!,!emphasis!(acento),!tenuto!(nota sustentada). -
Indicações de execução instrumental:
!upbow!(arcada para cima),!downbow!(arcada para baixo),!open!(corda solta ou harmónico),!thumb!(posição de polegar),!snap!(snap pizzicato),!slide!(deslizamento),!breath!(respiração). -
Dedilhações:
!0!a!5!indicam dedos específicos. -
Sinais formais:
!segno!,!coda!,!D.S.!(Da Segno),!D.C.!(Da Capo / Da Coda),!fine!. -
Marcas de frase:
!shortphrase!,!mediumphrase!,!longphrase!, indicando diferentes extensões visuais da frase.
Exemplo
%%abc-2.1
X:1
T:Agógica
L:1/4
.e ~g Hf Ld Me PA TB Sf Od uf ve
!trill!E !lowermordent!G !uppermordent!G !pralltriller!d !turn!f !roll!G !arpeggio![EAdg]
!>!c !accent!c !emphasis!c !tenuto!d !upbow!c !downbow!e !open!g !thumb!a !snap!b !slide!c'
!breath!c !segno!F !coda!F !D.S.!F !D.C.!F !fine!F !shortphrase!d !mediumphrase!d !longphrase!d
Letras (lyrics)
É possível alinhar texto (letras) com as notas musicais através do campo
w:. Cada sílaba corresponde, por defeito, a uma nota sucessiva.
O sistema é suficientemente flexível para repertórios silábicos e
melismáticos.
Campos principais
-
w:— letras alinhadas nota a nota (uma estrofe por linha). -
W:— texto livre não alinhado com a música (estrofes completas).
Convenções e símbolos essenciais
-
Hífen (
-) — separa sílabas da mesma palavra:Ma-ri-a -
Underscore (
_) — prolonga a mesma sílaba por várias notas (melisma). -
Asterisco (
*) — sílaba vazia; avança uma nota sem texto, mantendo o alinhamento. -
Barra vertical (
|) — força o alinhamento com a barra de compasso. -
Til (
~) — mantém palavras compostas ou com espaço interno na mesma sílaba gráfica. -
Espaço (
) — separa sílabas distintas.
Boas práticas editoriais
- Colocar cada linha
w:imediatamente após a música correspondente. - Usar múltiplas linhas
w:para estrofes alinhadas. - Reservar
W:para as estrofes, e/ou texto poético completo.
Exemplo integrado
%%abc-2.1
X:1
T:Fui colher uma romã
C:Tradicional
A:Alentejo
M:2/4
L:1/8
Q:"Lento" 1/4=60
K:F
A2GF|A2GF|A3G|F4|F2FE|G2ED|
w:Fui co-lher u-ma ro-mã_ *esta-va ma-du-ra no
C4|G4|B2BB|B2AB|c3B|A2AA|A2cc|
w:ra-mo, fui en-con-trar num jar-dim_ fui, en-con-trar num jar-
B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|B2BB|B2AB|c3B|
w:dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo, fui en-con-trar num jar-dim_
A2AA|A2cc|B3A|G2GA|B2AG|F4|F4|
w:fui, en-con-trar num jar-dim_ a-que-la mu-lher que'eu a-mo.
%
W:2.
W:Àquela mulher que eu amo
W:Dei-lhe um aperto de mão
W:Estava madura no ramo
W:Estava madura no ramo
W:E o ramo caiu ao chão
%
W:
W:3.
W:As pombas quando namoram
W:Pousam as asas no chão
W:Que é para os pombos não verem
W:Que é para os pombos não verem
W:O bater do coração
Neste exemplo, combinam-se sílabas separadas (-), melismas
(_), sílabas vazias (*) e texto livre (W:).
O alinhamento explícito por compasso (|) e o uso do til
(~) para manter palavras compostas ou com espaço interno na mesma
sílaba gráfica não foram utilizados.
Foi ainda utilizado o apóstrofo (') na escrita do texto para
indicar elisão ou ligação fonética entre palavras (por exemplo, que’eu),
mas o apóstrofo não é um comando do ABC Notation para alinhamento sílaba–nota.
Trata-se apenas de um carácter textual, de uso corrente em diversos contextos editoriais.
Várias vozes
Uma voz por sistema
A notação ABC permite escrever polifonia através da definição de
vozes independentes com o campo V:.
Cada voz corresponde a uma linha musical autónoma e pode ter a sua
própria clave, nome e conteúdo rítmico e melódico.
Quando não é usada qualquer diretiva adicional de agrupamento, cada voz é apresentada num sistema independente.
No exemplo seguinte, três vozes distintas são escritas e apresentadas cada uma no seu próprio sistema, com claves diferentes.
Exemplo simples
%%abc-2.1
X:1
T:Várias vozes
M:C
L:1/4
Q:1/4=80
K:C
V:1 clef=treble
V:2 clef=alto
V:3 clef=bass
[V:1]!p!(CD)(EF)| !<(!G2E2!<)!| !f!(FD)ED| HC4|]
[V:2]!p!C2 CD| !<(!E2G2!<)!| !f!AF(EF)| HE4|]
[V:3]!p!G,2 G,,2| !<(!C,2 ^C,2!<)!| !f!D,2G,,2| HC,4|]
Exemplo para coro (SATB)
A escrita a quatro vozes (SATB — Soprano, Alto, Tenor e Baixo) pode ser realizada, definindo cada parte vocal como uma voz independente. Neste caso, cada voz surge igualmente num sistema próprio, o que facilita a leitura individual das linhas vocais.
O texto cantado é associado às respetivas vozes através do campo
w:, mantendo a correspondência entre sílabas e alturas.
%%abc-2.1
X:1
T:Happy Birthday
T:para Coro (SATB)
M:3/4
Q:1/4=90
L:1/4
K:C
V:1 name=Soprano
G/2>G/2| A G c| B2 G/2>G/2| A G d| c2 z |
w: Hap-py birth-day to you Hap-py birth-day to you
V:2 name=Alto
E| F G2| G2 E| F G2| G2 z|
V:3 name=Tenor clef=tenor
C| B,2 E| D2 C| B,2 F| E2 z|
V:4 name=Baixo clef=bass
C,| F, E,/2-D,/2 C,| G, G,,C,| F, E,/2-D,/2 G,,| C, C,, z|
Duas vozes por sistema
Em contextos corais e harmónicos, é frequente agrupar duas vozes no mesmo sistema, permitindo uma leitura vertical mais direta e uma perceção clara das relações contrapontísticas e harmónicas.
Em ABC, este agrupamento é controlado pela diretiva
%%score, que define explicitamente como as vozes vão ser
organizadas graficamente nos sistemas.
A definição de cada voz é feita através do campo V:, seguido de um
identificador (por exemplo, S, A, T,
B). A cada voz podem ser associados atributos como a
clave (clef=), o nome completo
(name=) e uma abreviação (snm=), que surgem,
respetivamente, no início do sistema e em contextos de leitura reduzida.
Esta estrutura permite controlar de forma precisa a apresentação gráfica e a
identificação das partes vocais em partituras corais.
No exemplo seguinte, as vozes de Soprano e Alto são agrupadas no sistema superior, enquanto Tenor e Baixo partilham o sistema inferior, disposição típica da escrita coral SATB.
Cada linha musical é associada à sua voz através da indicação
[V:Nome], garantindo clareza estrutural mesmo em contextos
polifónicos mais complexos.
Exemplo para coro (SATB) em dois sistemas
%%abc-2.1
X:1
T:Aus meines Herzens Grunde
C:J. S. Bach
O:BWV 269
R:Choral
S:Musicalisches Gesang-Buch (1736) – Schemelli-Gesangbuch
N:Editor: Georg Christian Schemelli
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:G
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble name="Alto" snm="A."
V:T clef=bass name="Tenor" snm="T."
V:B clef=bass name="Baixo" snm="B."
[V:S]G|G2d|B3/A/G|G3/A/B|HA2 B|d2c|BA2|HG2:|]
[V:A]D|DED|D2B,|E/D/E/F/|G|F2G|DEF|G2F|D2:|]
[V:T]B,|B,C/B,/A,|G,F,G,|C/B,/CD|HD2D|A,B,C|DED/C/|HB,2:|]
[V:B]G,,|G,E,F,|G,D,E,|C,B,,/A,,/G,,|D,2G,,|F,,G,,A,,|B,,C,D,|G,,2:|]
Outras informações no campo V:
A linha V: é responsável pela configuração individual de cada voz,
permitindo definir não apenas a clave e o nome, mas também parâmetros gráficos
que afetam a leitura musical. Entre esses parâmetros, destaca-se a possibilidade
de fixar a direção das hastes ao longo de toda a voz, recorrendo a
stem=up ou stem=down, o que é particularmente útil
em contextos de escrita polifónica num único pentagrama.
Adicionalmente, pode ser aplicada uma escala relativa a cada voz através do
parâmetro scale=, permitindo estabelecer hierarquias visuais
entre linhas musicais, sem alterar o conteúdo rítmico ou melódico.
%%abc-2.1
X:1
T:Outras informações no campo V:
N:As novas informações integradas neste exemplo são:
N:- stem
N:- scale
N:As restantes opções do campo V: foram apresentadas anteriormente.
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=86
K:C
%%score {1 2}
V:1 clef=treble name="Soprano I" snm="S. I" stem=up scale=1.1
V:2 clef=treble name="Soprano II" snm="S. II" stem=down scale=0.9
[V:1]
!mf!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]
[V:2]
!ff!cdef|g2ag|fedc|
CEGE|[M:2/4](CE)|(GE)|C2|]
Acordes e Cifra
Notas simultâneas (acordes)
Notas simultâneas, isto é, acordes “na pauta”, escrevem-se dentro de parêntesis retos:
[CEG] representa um acorde de Dó maior.
Cifras harmónicas
Cifras de acordes (harmonia funcional) colocam-se entre aspas duplas antes da nota onde soam:
Exemplos: "C", "CMaj7", "G",
"G7", etc.
Exemplo com acordes e comentários
%%abc-2.1
% o comentário pode estar em qualquer sítio
X:1
T:Acordes
M:4/4
L:1/4
Q:1/4=60
K:C
[CEG] [GBD] [Gce] [ceg]||
"C"c e "G"d B | "Dm7"A F "G7"F D | "CMaj7"C4|]
Exemplo completo
%%abc-2.1
% ============================================================
% EXEMPLO SÍNTESE — ABC NOTATION
% Integração de alguns dos campos mais frequentes
% ============================================================
X:1
T:Exemplo Integrado de ABC Notation
T:Manual Básico — Síntese
C:Tradicional
O:Portugal
R:Didático/Coral
S:Manual Básico de ABC Notation
N:Exemplo pedagógico com múltiplos recursos do padrão ABC
H:Destinado à escrita, análise e criação de materiais didáticos e pedagógicos
Z:Lino Guerreiro
M:3/4
L:1/4
Q:"Por causa de um papagaio" 1/4=60
K:C
%%score (S A) (T B)
V:S clef=treble name="Soprano" snm="S."
V:A clef=treble name="Alto" snm="A."
V:T clef=bass name="Tenor" snm="T."
V:B clef=bass name="Baixo" snm="B."
% ============================================================
% SOPRANO
% ============================================================
[V:S]ggef| g2g2| gagf| e2c2|
w:Pa-pa-ga-io loi-ro, de bi-co doi-ra-do,
egfe| g2d2| dfed| c2Hc2|]
w:le-va-me'es-ta car-ta, ao meu na-mo-ra-do!
% ============================================================
% ALTO
% ============================================================
[V:A]E2GF| _E2DG/F/| =ED3| E/F/GF2|
E2FG-|GF-F3/^C/|D3F|E3/F/E2|]
% ============================================================
% TENOR
% ============================================================
[V:T]G,2ED/C/| _B,2=B,2| C2B,2| C_B,A,C|
C=B,DE| D3/C/_B,2| =B,2_B,2| A,2HG,2|]
% ============================================================
% BAIXO
% ============================================================
[V:B]C,3_B,,| _E,,3/F,,/G,,G,| G,^F,G,G,,| C,2=F,3/G,/|
A,E,D,C,| B,,3/A,,/_B,,3/A,,/| G,,G,,G,C,| F,,2C,2|]
O ABC Notation deve ser entendido como um sistema de escrita musical simbólica em texto simples, concebido para a representação funcional da informação musical e não como um sistema de notação editorial completo. O seu principal objetivo reside na documentação, partilha e análise de material musical, privilegiando a legibilidade humana, a portabilidade dos ficheiros e a facilidade de edição. Neste sentido, o ABC tem sido amplamente utilizado na preservação de repertórios tradicionais, na criação de esboços musicais, no ensino da leitura e da escrita musical e na produção de materiais didáticos e pedagógicos, funcionando como uma ferramenta intermédia entre a ideia musical e a sua eventual realização em ambientes de notação ou produção mais avançados. As limitações do ABC no que respeita à microtonalidade, à notação contemporânea complexa e ao controlo editorial do layout são reconhecidas pelos próprios autores como limitações conscientes do seu âmbito de aplicação.