Por baixo di a porta hai luz

Ao princípio pareceu-me ser o vento a bater nas canas, ou no alto dos sobreiros, ainda que imagino que deve ser raro, o vento, bem entendido. Mas agora que escuto melhor, parece-me ouvir mais lá ao fundo, as enxadas a bater na terra, para lá do cante, bem ao longe. E o bater dos corações, será? Conseguem ouvir? Esse já me tinha despertado a atenção. Oiço também vozes de homens, seguramente, juntas com as enxadas a bater na terra, e com os corações que não param. E agora que oiço ainda com mais atenção, consigo distinguir também algumas vozes de mulheres, e é engraçado que ao mesmo tempo parece-me ouvir também crianças a brincar. São curiosas estas paisagens do Alentejo, na nossa cabeça, são um sítio ermo e solitário, mas a vida que nelas há, é surpreendente, acreditem em mim. O cante voltou, agora junto com um ritmo que deduzo ser de trabalho. Imagino os corpos suados do calor, agora que também “oiço” este calor intenso e constante. Não deixa de ser curioso que quanto mais tarde fica, e o calor abranda, mais sons despertam a minha atenção. Entretanto já é quase noite, e eu nem dei pelo tempo a passar, enquanto contemplava esta paisagem maravilhosa. Bom, é certo que este cante não me sai da cabeça. Já nem sei muito bem se o estou realmente a ouvir, ou se é a minha imaginação. Gostava que estivessem aqui, e se vocês pudessem ver, tal como eu, iriam certamente perceber o que vos digo. É quase noite cerrada nesta paisagem do Alentejo, mas se olharmos bem, e com atenção, conseguimos ver que Por baixo di a porta hai luz, e é sinal de haver lá gente. É hora de seguir viagem, e sim, os rouxinóis também cantam à noite.”

Lino Guerreiro

Paráfrase

A evolução nunca pode acontecer se apontar sempre no mesmo sentido, necessita de se expandir em todas as direções. Evolução não significa “mais”, aproxima-se do essencial. A evolução é a paráfrase, a continuidade. Nada é por acaso, não existe o original, tudo é uma paráfrase! E nunca saberemos onde, nem como começou!

Lino Guerreiro

Eis a questão

De uma conversa com um amigo, irmão, surge uma reflexão que se prende com as diferentes formas de encarar a música. Para mim é logo na génese da questão que está a diferença. A diferença é entre “pensar a música” e “pensar na música” !! Pensar a música é dissertar, (conceito teórico, desprovido de sentimentos e de emoções). Pensar na música é recordar (capacidade humana, que nos afeta no íntimo, sempre que se manifesta) … depois há um cânone pessoal de recordações, esse é inalterável … mas isso e outra história … fica para depois !

Lino Guerreiro

Consciência

Que animais tais,
que são todos iguais,
que persistem,
existem, e nunca desistem.

Porém, mesmo quem,
os conhece bem,
fica aquém,
das suas palavras de bem.

Ninguém, mas mesmo ninguém, 
entende os seus lamentos,
fortes são esses animais,
são por demais,
os verdadeiros, os demais
matreiros.

Insistem, os animais,
mas afinal,
quantos são no seu total?
São seguramente,
demais.

Se não falassem,
eram ideais.

Consciência?
Uso dela?
Nem vê-la !!!

Lino Guerreiro

A colcheia que não coxeia

A notação musical é para mim um código que transmite parcialmente a nossa arte dos sons. Existe uma parte que não me compete a mim, enquanto compositor “codificar”, é nessa parte que reside a magia desta arte. Por acreditar nesta “fantasia”, espero sempre que a minha música possa ser interpretada de várias e diferentes formas, fazendo isto com que tenha o privilégio de ouvir diferentes e únicas interpretações da minha música. Logo, para quê discutir se uma colcheia está ou não no sítio certo, ou se a intenção está certa? Se assim o é, porque não tocamos só a nossa própria música? E já agora, não a deixar ser tocada por mais ninguém. Assim tudo estaria certo, e no sítio certo. Desculpem, mas eu prefiro ser privilegiado pela minha “fantasia”. Nunca se esqueçam que só vocês saberão o que realmente pretendiam, (no vosso coração, ou alma), quando através desse “código” escreveram algo que, para fatalidade da vossa absoluta certeza, não conseguiram transmitir! A colcheia estará mais uma vez no sítio certo, isso ninguém pode negar. E o resto?

Lino Guerreiro

Carolina Deslandes – Casa

Do disco “CASA” da Carolina Deslandes, o tema “A MIÚDA GOSTA” com arranjo de Valter Rolo e orquestração de Lino Guerreiro. Trombone – Rúben da Luz, Clarinete – Ricardo Toscano.

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