Textos

Consciência

Que animais tais,
Que são todos iguais,
Que persistem,
Existem, e nunca desistem.

Porém, mesmo quem,
Os conhece bem,
Fica aquém,
Das suas palavras de bem.

Ninguém, mas mesmo ninguém,
Entende os seus lamentos,
Fortes são esses animais,
São por demais,
Os verdadeiros, os demais matreiros.

Insistem, os animais,
Mas afinal,
Quantos são no seu total ?
São seguramente,
Demais.

Se não falassem,
Eram ideais.

Consciência ?
Uso dela ?
Nem vê-la !!!

Lino Guerreiro


….) eis a questão

(…) de uma conversa com um amigo, irmão, surge uma reflexão que se prende com as diferentes formas de encarar a música. Para mim é logo na génese da questão que está a diferença. A diferença é entre “pensar a música” e “pensar na música” !! Pensar a música é dissertar, (conceito teórico, desprovido de sentimentos e de emoções). Pensar na música é recordar (capacidade humana, que nos afeta no íntimo, sempre que se manifesta) … depois há um cânone pessoal de recordações, esse é inalterável … mas isso e outra história … fica para depois ! (…)

Lino Guerreiro


a colcheia que não coxeia

(…) a partitura musical é para mim um código que transmite parcialmente a nossa arte dos sons. Existe uma parte que não me compete a mim, enquanto compositor “codificar”, é nessa parte que reside a magia desta arte. Por acreditar nesta “fantasia”, espero sempre que a minha música possa ser interpretada de várias e diferentes formas, fazendo isto com que tenha o privilégio de ouvir diferentes e únicas interpretações da minha música. Logo, para quê discutir se uma colcheia está ou não no sítio certo, ou se a intenção está certa? Se assim o é, porque não tocamos só a nossa própria música? E já agora, não a deixar ser tocada por mais ninguém. Assim tudo estaria certo, e no sítio certo. Desculpem, mas eu prefiro ser privilegiado pela minha “fantasia”. Nunca se esqueçam que só vocês saberão o que realmente pretendiam, (no vosso coração, ou alma), quando através desse “código” escreveram algo que, para fatalidade da vossa absoluta certeza, não conseguiram transmitir !!!! (….. a colcheia estará mais uma vez no sítio certo (… isso ninguém pode negar (… e o resto ??? (…)

Lino Guerreiro


to be or not (…

(…) o músico que somos, (tentamos ser), é reflexo do que a música nos faz, de como chega a nós (…)

Lino Guerreiro


paráfrase

A evolução nunca pode acontecer se apontar sempre no mesmo sentido (…) necessita de se expandir em todas as direções. Evolução não significa “mais” (…) aproxima-se do essencial. A evolução é a paráfrase (…) a continuidade. Nada é por acaso, não existe o original, tudo é uma paráfrase !!! (…) e nunca saberemos onde, nem como começou !!!

Lino Guerreiro


Maud’Adib

Embora ainda houvesse pouco tempo que o sol tinha surgido no horizonte, a energia que dele emanava e o calor que se fazia sentir eram já praticamente insuportáveis. Passava pouco das sete da manhã, mas em terras de mouros e sarracenos era assim a maior parte dos dias, o deserto era desde muito cedo ameaçador e imponente na sua ira.

Mas este dia para além de tórrido e seco era realmente diferente de todos os outros. A agitação na aldeia desde muito cedo que tinha despertado a atenção da maior parte daqueles que tinham já iniciado a sua atividade diária, antes mesmo do Sol ter chegado. A madrugada era a altura preferida para trabalhar por aqueles que mais sofriam com o calor.

Maud’ Adib apercebeu-se pelo que dizia um viajante noturno que tinha acabado de chegar à aldeia, que não muito longe dali, talvez a pouco mais de duas horas de viagem, se deslocava a bom ritmo para sul, uma caravana gigantesca de homens, mulheres, crianças e animais. Maud nem pensou duas vezes, e numa correria louca preparou o seu cavalo a fim de ir ao encontro da caravana.

Ele era um jovem de vinte e dois anos, muito bem constituído pois o trabalho árduo a isso o obrigara, e a sua pele escura era mais tisnada pelo Sol do que propriamente pela raça a que incondicionalmente ou aparentemente pertencia. Tinha um ar bastante soturno, mas costumava, quase sempre, ser bastante simpático, a não ser que desconfiasse de algo ou alguém. Havia um grupo de miúdos que o observava atentamente a correr de um lado para outro, mas limitavam-se a observar, sem ganhar coragem sequer para comentarem, mesmo entre eles. A azáfama foi interrompida pelo ferreiro da aldeia, um homem de idade avançada, que nos últimos quase vinte e dois anos, tinha sido o pai que Maud’Adib nunca tinha conhecido. Este tinha-o criado e educado desde muito cedo.

– Diz-me Maud, que te leva a tamanha agitação, porque selas o teu cavalo? Vais a algum lugar?

– Vou, vou sim pai, vou partir. Vou de encontro ao meu destino, não percebes pai? É o meu sonho, aquilo com que sonho constantemente. A caravana, é o sinal, o chamamento.

– Mas meu filho, como podes tu ter tanta certeza disso? Poderá ser só mais uma caravana de semitas. Como podes tu saber que é o povo de Magreb que nela vai?

– Não, desta vez é diferente, consigo senti-lo, pai. É o sinal, o meu sonho que se está a realizar, não percebes? Vou ao encontro da minha verdadeira origem.

– Mas Maud, o Sol já vai alto, sabes muito bem que é demasiado perigoso enfrentares o deserto a esta hora do dia.

– Percebe Pai, não posso deixar passar em vão esta oportunidade, tem de ser este o meu destino. E eles devem estar acampados, de certeza que não vão continuar a marcha durante o dia, não podem estar muito longe. Vou Pai, vou ao seu encontro.

– Vejo que não posso convencer-te do contrário. Se vais partir, pois bem, só me resta rezar por ti.

Maud olhou para o ancião com um sorriso nos lábios e cheio de compaixão e agradecimento por tudo o que devia aquele homem. Depressa percebeu que nunca mais o voltaria a ver. Pensou em tudo o que viveu à guarda daquele homem, tão experiente quanto misterioso, e recordou em segundos todos os seus ensinamentos. Por fim, montou o seu cavalo e partiu em direção ao mar de areia infinito, não voltou a olhar para trás.

Passaram-se poucas horas até que Maud’Adib realmente percebesse que nenhuma descrição dos viajantes noturnos, ou do seu próprio mentor, acerca do deserto se comparava com a realidade de ali estar, cercado de areia, mesmo no meio do deserto infinito.

Já havia muito que o seu cavalo estava em sofrimento, e ele próprio acabara de beber as últimas gotas de água que lhe restavam. Procurava em vão vislumbrar fosse o que fosse, um pouco de sombra, a caravana, qualquer coisa, mas nenhuma viva alma se cruzava com ele, praticamente desde que tinha abandonado a aldeia. Por fim, o seu cavalo cedeu e caiu por terra completamente esgotado. Maud teve um último pensamento, “Será este o meu destino? Foi assim que vim de encontro ao meu fim?” o seu corpo tremeu e Maud desmaiou. O Sol não o iria poupar, nem a ele nem a ninguém. Nenhum dos que tinham outrora tentado desafiar o deserto durante o dia tinham regressado ou atingido o seu objetivo.

Surgiu uma música no ar, ou na sua cabeça, não sabia ao certo de onde, mas era algo muito ténue, Maud quase não conseguia distingui-la do zumbido que tinha nos ouvidos. Com um último sopro de força, tentou levantar-se, mas era escusado, levantou a cabeça e olhou em frente, viu uma mulher vestida de branco, ainda mais bela do que a do seu sonho, mas depressa a imagem se desvaneceu, e ele percebeu que tinha sido uma miragem. Caiu de novo por terra, e entregou-se por completo aquele destino que horrível. De repente a música regressou mas desta vez parecia-lhe cada vez mais perto. A última vez que Maud abriu os olhos estava postado à sua frente um homem bastante robusto e maduro com um ar muito sério, chamou-lhe a atenção o facto de este homem ter na sua cabeça uma enorme coroa. Esta foi a última imagem que viu antes de voltar a perder os sentidos.

Uma mulher de branco dizia-lhe ao ouvido.

– “Tu, Maud’Adib, és o escolhido! É por ti que aqui estamos, é por nós que aqui estás.”

E de seguida, como sempre, acordou. Tinha voltado a ter o mesmo sonho de sempre e acordado exatamente no sítio onde sempre acordara. Olhou à sua volta, não reconheceu ninguém, sentia-se melhor, um pouco mais forte, estava coberto por uma espécie de tenda. Ao continuar a explorar como olhar à sua volta, percebeu que era transportado numa caravana no meio do deserto em plena noite. Para além dele e de uma mulher que tinha uma criança ao colo, toda a gente caminhava ao ritmo de uma canção que ao mesmo tempo entoavam. Maud não fez perguntas, deitou-se e voltou a adormecer.

Estavam passados praticamente três dias, e sentado numa cadeira bastante magnificente estava sentado Al’Rashidun, o Califa de Magreb, quando entram pela sala principal adentro, duas crianças a correr e a gritar.

– Ele acordou, ele já está acordado, conseguiu sobreviver, é ele, só pode ser ele.

Depressa Al’Rashidun ordenou em voz bastante alta.

– Preparem o indivíduo e tragam-no à minha presença, imediatamente.

Maud, ainda muito fraco, foi praticamente forçado a apresentar-se perante o Califa. Depois de o prepararem, acompanharam-no pelos corredores do palácio até perto da entrada da sala do trono, aí, indicaram-lhe a direção que devia tomar, e disseram-lhe o propósito.

– Vais à presença do Califa, homem do deserto, se eu fosse a ti tinha cuidado com o que vais dizer, ou ainda vais acabar mal. Não penses que por te teres livrado da ira do deserto és imortal.

Depois os dois guardas riram-se e abandonaram Maud à frente da porta da sala do trono.

Embora estivesse extremamente nervoso, Maud tentou o mais possível não o deixar transparecer. Ao entrar na sala ficou muito surpreendido pois, ao contrário do que pensava, o Califa não se encontrava sozinho. A sala estava praticamente cheia de gente dos dois lados e só restava um pequeno corredor por onde Maud podia chegar perto de Al’Rashidun. O silêncio era total, Maud avançou e só se ouvia o som dos seus sapatos novos a bater no chão de mármore. Quando chegou perto do trono o Califa olhou-o de cima a baixo com alguma desconfiança, mas Maud viu também no seu olhar expectativa. Ao contrário do que Maud previa, Al’Rashidun só lhe fez duas perguntas.

– Diz-me bom homem, tens sonhado ultimamente?

De súbito, Maud’Adib ficou ainda mais nervoso, não percebia o significado de tudo aquilo, porque estava aquele homem a fazer-lhe aquela pergunta, tão pessoal? Pensou no seu sonho, no que poderia significar para ele, para aquelas pessoas todas, que lugar era aquele? Ficou tão confuso que nem sequer conseguiu articular uma única palavra. Limitou-se a acenar ligeiramente com a cabeça que sim.

– Suponho que isso seja um sim homem, então diz-me…

Al’Rashidun levantou lentamente o braço apontando para a sua direita, para uma mulher com a cara tapada, e fez-lhe sinal para que ela se aproximasse, destapou-lhe a cara e virou-se para Maud, perguntando.

– Conheces, por ventura, esta mulher?

Maud’Adib não disse nem que sim nem que não, percebeu logo que, se respondesse não, era o seu fim, e que se respondesse sim, não seria o suficiente. Pensou um pouco, como poderia responder para satisfazer a vontade do Califa, e para garantir que esclarecia totalmente todas as questões que atormentavam tanto o Califa como todo o restante povo ali presente. Por fim encheu-se de coragem e respondeu.

– Essa mulher… É a mulher do meu sonho.

E de súbito irrompeu na sala um enorme grito de alegria proveniente de toda a gente ali presente, ao mesmo tempo que Al’Rashidun sorria.

Sem qualquer demora foi organizada uma festa em honra de Maud’Adib, todos beberam comeram e dançaram em sua honra durante praticamente todo o dia e noite seguinte. Assim que Maud teve oportunidade de falar com a mulher, perguntou-lhe o que significava ele ser o escolhido como ela lhe dizia no sonho, e o que queria dizer o nome dele, pois nunca ninguém lhe soubera dizer anteriormente. 

Numa voz bela e doce ela disse-lhe ao ouvido.

– Maud’Adib quer dizer na língua antiga de Magreb, “O filho do Sol”, és tu. És o escolhido como está escrito no livro dos Sábios. “… Será encontrado no meio do deserto aquando do nosso povo seguir na rota das aves que migram para sul, o escolhido, aquele que o Sol não consegue flagelar será o senhor de Magreb…”

-És tu Maud’Adib, és o escolhido, serás o Califa de Magreb, este é o teu destino. É por ti que aqui estamos, é por nós que aqui estás.

Lino Guerreiro


AINULINDALË a música dos Ainur

Havia Eru, o Único, que em Arda se chama Ilúvatar; ele fez primeiro os Ainur, os Sagrados, que eram filhos do seu pensamento e que estiveram com ele antes de alguma coisa mais ser feita. E falava-lhes, propondo-lhes temas de música; e eles cantavam perante ele, que ficava satisfeito. Mas, durante muito tempo, cantavam só um de cada vez, ou pouco juntos, enquanto os restantes escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar donde proviera e só lentamente ia compreendendo os seus irmãos. No entanto, todas as vezes que escutavam, adquiriam uma compreensão mais profunda, e a sua unissonância e harmonia aumentavam. E veio a acontecer que Ilúvatar reuniu todos os Ainur e lhes comunicou um tema portentoso, mostrando-lhes coisas maiores e mais maravilhosas do que até então lhes revelara; e a gloria do seu começo e o esplendor do seu fim de tal modo maravilharam os Ainur que eles se curvaram diante de Ilúvatar e ficaram silenciosos. Então, Ilúvatar disse-lhes: “Do tema que vos anunciei quero agora que façais juntos, em harmonia, uma grande música. E, como acendi em vós a chama imperecível, demonstrareis os vossos poderes no adorno deste tema, cada um com os seus próprios pensamentos e engenho, se assim quiser. Mas eu ficarei sentado e escutarei e feliz me sentirei por, através de vós, grande beleza ter despertado num canto.”

J.R.R. Tolkien