Textos / Projeto Michel Giacometti

– “Ó que bem que baila la Moura”

Oriunda de Bragança, mais propriamente de Vinhais, é também conhecida como “a Moira do Seixal”, uma de muitas cantigas referenciadas na temática das Mouras Encantadas.

É apresentada pelo quarteto de saxofones como que se de um coral se tratasse. Quatro vozes, às quais se junta um quinto elemento, intemporal por natureza, dada à transversalidade do seu discurso, que assume aqui a sua remota origem e a contemporaneidade dos dias de hoje. Paulo Machado no acordeão.

– “Andorinha Gloriosa”

Com origem na Beira Litoral, Figueira da Foz, esta “oração cantada” fazia parte da “Oração do Peregrino”.

O quarteto de saxofones assume neste tema uma dualidade de discurso, por um lado a “Oração” na sua forma original, por outro um discurso pontilhístico, provocador, que parece não contagiar a serenidade e harmonia da oração, suportada aqui por três novas vozes, que elevam o momento de introspecção, o Trio de Cordas.

– “Olha o Velho, Olha o Velho”

Retirada de um romance novelesco, esta canção transmontana, oriunda de Bragança, apresenta na sua forma original uma forte consistência rítmica, melódica e harmónica, dando suporte ao imaginativo conteúdo do texto.

Nesta reinterpretação, o desenvolvimento de um arrojado cânone, sugere a “desconstrução” da canção original.

– “Ó da Malva, Ó da Malva”

Esta cantiga das malhas, oriunda de Vinhais, Bragança, tem a particularidade de ser sempre cantada por volta do meio-dia.

Esse aspecto suscitou no compositor Lino Guerreiro um interesse conceptual de “introduzir” um tradicional relógio de pêndulo no discurso musical dos quaro saxofones, como que marcando a hora da cantoria…

– “Disse o Galo prá Galinha”

Embora este tipo de canção tradicional infantil esteja presente em todo o país, é de origem Mirandesa. Em forma de lengalenga, servia antigamente de jogo para passar o tempo nos serões de inverno.

Nesta versão para quarteto de saxofones, a canção é apresentada num formato muito próximo do original, utilizando as vozes dos saxofones para criar uma espécie de conversa a quatro.

– “Ó Bareira, Ó Barreirinha”

Oriundo de Esposende, este tema assenta numa “Chula”, género clássico da música popular portuguesa.

Apesar da opção do compositor, em afastar-se das características formais e musicais deste género, na secção final da obra toda a concepção tenta resgatar a “Chula”.

– “Ó minha Farrapeirinha”

Dança da Beira Baixa, também conhecida no Ribatejo, “Ó minha Farrapeirinha” é aparentemente oriunda do concelho de Castelo Branco.

Na reinterpretação desta a dança, assistimos a uma curiosa dicotomia musical. Sendo este um tema não cantado, na sua forma original, o compositor assume uma forma de escrita musical característica para vozes (cantochão), contraposto com os tambores tradicionais dos “Bardoada – O grupo do Sarrafo”.

– “Senhora do Almurtão”

Reza a lenda que “Um dia, madrugada ainda, atravessavam o campo pelo sítio Água Murta, para o labor de todos os dias, pastores e ganhões. Notaram então que numa mouta de murteiras grandes, havia algo de estranho. Aproximaram-se e viram uma linda e resplandecente imagem da Virgem. “Milagre! Milagre!”, exclamaram, ao mesmo tempo que caíram de joelhos para rezar. Resolveram então conduzir a Santa Imagem para a igreja de Monsanto. Mas Ela desapareceu pouco depois e procurada no local da aparição lá estava, exactamente no mesmo sítio. E sempre que a procuravam, ela lá estava no lugar da aparição no murtão. E, respeitadores da vontade bem expressa da Senhora, os habitantes da vila construíram no local uma capelinha.”.

Proveniente de Idanha-a-Nova, é um dos mais famosos e conhecidos cantos de romaria do nosso país.

Nesta versão, a melodia principal é repetida inúmeras vezes, sempre com um discurso musical diferente, na forma de um “canto” e variações.

– “Ai, tu é que és o meu Rapaz”

Oriunda de Beja, esta moda era cantada especialmente durante as sementeiras.

Segundo Lino Guerreiro, esta moda cantada, que este conheceu como um coral alentejano, por mais tentativas reinterpretativas que tenha, nunca deixará de o ser. Assim, apresenta-se aqui em forma de coral, muito próximo do original, apoiado pela flauta do próprio compositor.

– “Vai-se o dia, vem a noite”

Moda da Lavoura, presente em todo o baixo alentejo, muito comum em Beja. Em contraste com os corais alentejanos, esta moda da lavoura seria cantada muitas vezes na solidão dos campos. Tendo em conta esse aspecto, o compositor resolveu trata-la maioritariamente como um recitativo. Mas, ao fim de mais um dia, todos se juntarão para cantar a uma só voz…

– “Recordai, Nobre Senhor”

Oração das almas, com função de canto de peditório, oriunda de Alcoutim, Faro.

As “Bruxas”, pássaros que integram a fauna desta região Algarvia, dão o mote ao início do tema, com o seu extraordinário cantar, quase que imitando sons electrónicos.

Mais uma vez, o cânone serve de veículo para a “desconstrução” da melodia principal, que vai renascendo até se assumir novamente, vigorosamente acompanhada com os bombos dos “Bardoada, o Grupo do Sarrafo”.

– “Chama Rita, chama chama”

Baile cantado, com origem na ilha da Madeira.

Sendo um tema, que teve a sua origem em arquipélagos portugueses, toda a concepção assenta na apresentação do tema na sua forma original, circundado por dois gestos musicais que retratam a imensidão do atlântico, no horizonte destas ilhas.

– “Abaixai-vos Carvalheiras”

Proveniente da Beira Baixa, região da Covilhã, este tema era e continua a ser cantado em alturas das festas de São João.

Na sua concepção, a constante viagem nas diversas tonalidades (tons) representa “o passar dos anos”.

– “Ó minha caninha verde”

Chamada de Cana Verde esta dança é oriunda de Santo Tirso.

Sendo uma dança, existem características que lhe são inerentes. Os tambores tradicionais e uma outra série de instrumentos de percussão, não foram convidados a estar presentes, sempre fizeram parte desta dança

– “Senhor Francisco Bandarra”

Canção oriunda de Coimbra, dos finais do séc.XVIII.

Sendo um dos temas mais antigos desta coletânea, o compositor Lino Guerreiro resolveu simplesmente “vestir” a canção com uma linguagem musical “aparentemente” mais moderna. Da referida concepção, resta apenas argumentar que na lei da polaridade, os extremos se tocam.

– “Canário, Lindo Canário”,

   Canção amorosa oriunda de Arouca, Aveiro;

  “Puestos Estan Frente a Frente”,

   Canção sobre a batalha de Alcácer Quibir;

  “Ó Valverde, Ó Valverde”,

   Coral acompanhado por instrumentos, oriundo de Lourosa de Campos, Aveiro.

A concepção tem origem na tentativa de uniformizar as três canções, apesar de as mesmas serem oriundas de regiões diferentes. A última das três, sendo um coral, é a que contribui para a uniformidade. Porém, depois de cumprir o seu propósito, parte para um outro universo…

– “Não Quero que vás à Monda”

Uma das canções e corais mais comuns em todo o Baixo-Alentejo, registada no Cancioneiro de Serpa.

coral alentejano, aqui presente pelas vozes do grupo coral “Ausentes do Alentejo”, é precedido por uma nova interpretação, onde o saxofone demonstra ter herdado o essencial, permanecendo o eco da verdadeira tradição…