Gamala

 (percussão solo e orquestra de sopros/percussion solo & concert band)


pt

A ideia geradora da obra está intrinsecamente ligada aquilo que de certa forma posso chamar uma raga indiana, ou pelo menos de uma derivação de uma raga típica, “gamala taki”. A divisão do compasso com dez colcheias, é constante, enquanto as diferentes divisões dos compassos com sete colcheias respeitam um ciclo pré-determinado. Associando a raga original à divisão utilizada, ou seja, a palavra “gamala” para os grupos de três colcheias e a palavra “taki” para os grupos de duas, obtenho a raga utilizada no início da obra: 10/8 | taki | gamala | taki | gamala | 7/8 | gamala | taki | taki | 10/8 | taki | gamala | taki | gamala | 7/8 | taki | gamala | taki | 10/8 | taki | gamala | taki | gamala | 7/8 | taki | taki | gamala | 10/8 | taki | gamala | taki | gamala |, e o último 7/8, quatro colcheias mais três colcheias, é uma exceção à regra instalada. Tendo em conta que se trata de um concerto de percussão, a ideia de conceção inicial  teve de ser obrigatoriamente no âmbito do ritmo. O desafio lançado a um percussionista, e nomeadamente ao Marco Fernandes, que bem conheço, tinha de ser obrigatoriamente grande neste âmbito. A dificuldade rítmica é por isso um aspeto importante deste concerto. A forma como essa complexidade é disfarçada também é importante. Nem sempre o resultado auditivo esclarece o ouvinte do que realmente se passa ao nível rítmico, o que é na minha opinião é um dos aspetos mais interessantes deste concerto. Tenho afirmado nos mais diversos contextos que são inúmeros os fatores que influenciam o ato de compor. Saber de antemão para quem a obra é escrita é um fator determinante no ato da composição, assim como saber qual o grupo para a qual esta se destina, e mais importante ainda, neste contexto, saber quem será o responsável máximo pela sua interpretação. Perante este panorama, para a estreia desta obra é importante dizer que o fato de saber de antemão que esta se destina ao percussionista Marco Fernandes, e que será dirigida pelo maestro Alberto Roque, é não só determinante no ato de compor, como me deixa no limite das possibilidades, completamente à vontade melhor dizendo. Para além da grande competência que assiste a ambos, estes dois caríssimos amigos e colegas conhecem bem a minha música, o que é sem dúvida um aspeto que tomei em conta e que esteve sempre presente no ato da composição.

O primeiro andamento da obra, INTERLUDE, resultou da primeira abordagem que fiz ao material enunciado. Mais tarde este acabou também por servir para encerrar a obra, sendo essa decisão tomada com o intuito de garantir alguma coerência ao nível formal. O terceiro andamento da obra, WAR SONG, foi o segundo a ser composto. Mais uma vez neste é a complexidade rítmica que prevalece e conduz o discurso musical durante todo o andamento. Os pressupostos são também reminiscentes da ideia geradora inicial. O segundo andamento da obra, FOLK SONG, foi porém concebido tendo em conta um único pressuposto, o maior contraste possível. Resultou assim num andamento extremamente melódico e constante. Todo o discurso acata estas características. Num âmbito geral a obra resulta do lançamento de uma ideia primordial, geradora de todo o discurso, a partir da qual são criadas algumas regras, que posteriormente vão sendo desrespeitadas ao longo da composição. Esta prática tem vindo a ser cada vez mais comum na minha música. Cito um conceito associado ao compositor e maestro Pierre Boulez, que de alguma forma marcou a minha formação enquanto compositor, “indisciplina local”. Parto da ideia de que o constrangimento gera sempre novas soluções. São estes dois conceitos em constante articulação que servem de “desculpa” à inspiração que me assistiu na composição deste concerto.